QUANDO A MOBILIZAÇÃO POPULAR VALE A PENA: SÃO JOÃO DE AREIAS E FIAIS DA TELHA

Foto por Interior do Avesso
Estamos em mais um período histórico de descredibilização da classe política. Casos de corrupção e promessas feitas que não são de todo cumpridas leva-nos a nós, como sociedade, a pensar que a mobilização popular e organizada não traz  nada, mas existem dois exemplos que provam o contrário. A luta dos utentes da Extensão de Saúde de São de João de Areias por um acesso digno aos cuidados e uma nova unidade de saúde naquela freguesia e a luta da população dos Fiais da Telha para impedir a reactivação de uma pedreira naquela localidade. Uma já levou a abertura de novo concurso para a construção de um novo posto médico e a outra obrigou aos responsáveis autárquicos a tomarem uma posição pública sobre o assunto.

São João de Areias é uma freguesia de Santa Comba Dão que sofre, como tantas outras freguesias, as consequências do desinvestimento nos serviços públicos e da promoção do abandono dos territórios de baixa densidade. Existe um Posto Médico que serve perto de 1500 utentes e está instalado na sede da Junta de Freguesia, sem condições apesar de algumas obras já feitas e sem profissionais de saúde que queriam trabalhar ali, falta de material hospitalar e as más condições das próprias instalações levam a isso. Sem médico, sem um acesso efectivo aos cuidados de saúde, com horários de atendimento reduzidos e com cada vez menos utentes. A população opta por mudar o seu médico de família para a sede do concelho ou até para concelhos vizinhos, como Tábua. Estratégia concertada para esvaziar mais um serviço público e depois argumentar que não vale a pena obra nenhuma nem manter a Unidade Local de São João de Areias aberta? Não sei, é uma possibilidade.
A população, na sua maioria envelhecida e com a extrema necessidade de cuidados de saúde adequados, mobilizou-se através de duas concentrações de protesto para reivindicar a construção da tão prometida nova Unidade de Saúde Local e os cuidados de saúde necessários para os utentes, com a contratação de um médico a tempo inteiro para aquela freguesia. Ambas as concentrações contaram com perto de 100 pessoas, uma realizada em Setembro de 2018 e a outra em Março de 2019. A última obrigou aos responsáveis locais (Presidente da Câmara, Presidente da Junta e Director do ACES Dão Lafões) a se pronunciarem perante a população na própria iniciativa, onde estiveram presentes.
É um fato que já tinha sido aberto um primeiro concurso em 2016, mas por vários motivos não se tinha dado continuidade. Até dá que suspeitar que a Junta tenha decidido durante uns tempos ocupar o espaço que era destinado para a nova Unidade Local de Saúde com a feira local que é realizada mensalmente. Parecia que a ideia da construção da nova Unidade tinha sido deitada fora, mas depois das duas mobilizações foi aberto um segundo concurso, há umas semanas, o que traz um pouco de esperança a esta população.
A localidade de Fiais da Telha, em Carregal do Sal, acordou um dia de Janeiro deste ano com a movimentação de terras e máquinas pesadas no sítio da Portela, localizada em pleno Circuito Pré-histórico Fiais/Azenha, muito próximos de habitações e da Rede Natura 2000 que protege algumas espécies endémicas da região, como o Narciso do Mondego e a Lagartixa-Lusitânica. O local em questão era uma antiga pedreira que está desactivada há perto de 50 anos, mas que agora querem voltar a colocá-la a funcionar.
Prontamente os e as fialenses se mobilizaram, perto de 200 pessoas juntaram-se no dia 29 de Fevereiro para protestar contra a reactivação da pedreira, que irá prejudicar a biodiversidade envolvente tal como as populações dos Fiais da Telha e Lapa do Lobo. A mobilização obrigou que vários partidos e órgãos autárquicos clarificassem a sua posição relativamente ao assunto e deu um sinal de força para que seja entendido que aquele tipo de exploração não é bem-vinda em Fias da Telha.
Aguardam-se novos desenvolvimentos, mas de certeza que este foi um sinal claro e inequívoco de que os e as fialenses querem preservar o seu bem-estar. E estão no seu direito.

Diego Enrique Rodrigues Garcia, nasceu no dia 1 de Agosto de 1992 em Ourense, na Galiza. Desde 2009 que reside continuamente em Portugal, na região da Beira Alta.
Ativista social e independentista galego, está ligado ao movimento associativo na área ambiental, do bem-estar animal e da juventude. Dirigente do Bloco de Esquerda no distrito de Viseu
Atualmente a realizar uma licenciatura em Estudos Europeus na Universidade Aberta.

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