Ainda o ano vai nos primeiros dias e já está marcado por três assuntos, por três coisas que importam: ciência, democracia e cultura.

Começando pela ciência: a vacinação contra a Covid-19 é real e segue caminho. Mas o que poderia, muito simplesmente, ser um sinal de esperança depois de meses com a realidade virada do avesso, está a ser muito mais do que isso, para o bem e para o mal.

Por um lado, a rapidez aparente com que se conseguem vacinas, resulta do trabalho científico desenvolvido, mas invisível, durante longos anos. Que tal sirva para nos mostrar o que habitualmente não vemos: o mérito de cientistas e ciência, bem como a necessidade e pertinência de investimento numa área e em profissionais por vezes muito mal tratados.

Por outro lado, as vacinas vieram também desvelar posições e discursos conspiratórios, anticiência e, geralmente, autoproclamados apartidários. Tal é resultado não só de uma crescente descrença e desinteresse na novela política e nos seus atores, como também de uma ciência que vive longe dos pretensos ideais de objetividade e neutralidade. A ciência tem vindo a ser orientada por políticas científicas que priorizam o lucro em detrimento do bem comum ou do enriquecimento humano. Políticas científicas que cada vez mais se orientam pela bússola meramente dos interesses económicos e capitalistas.

Passando à segunda coisa que importa: democracia. Esta semana assistimos às notícias da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, com o objetivo de impedir a ratificação de resultados eleitorais, num ataque direto e violento contra a democracia, que mais não é do que o resultado da normalização da extrema direita.

Que este episódio, que apesar de inusitado, infelizmente, pouco espanta, sirva de alerta para o momento de política nacional que vivemos. Em pleno período que antecede a campanha e as eleições para a Presidência da República, vemos as presidenciais resumidas a rankings, questionáveis em vários aspectos e, como habitualmente, propícios a interpretações falaciosas, e a debates que, apesar de entreterem, pouco serviço têm prestado quanto a um cabal esclarecimento sobre quais as políticas, posições, ou proposta de mandato presidencial das candidatas e candidatos.

Que sirva o exemplo norte-americano para esclarecer qual a ameaça, real, aos direitos, à liberdade e à igualdade, que esclareça sobre qual o nível total de desrespeito aos valores democráticos, que a normalização e aceitação da extrema direita representam.

Passando ao terceiro assunto: Cultura. Perdemos logo no primeiro dia do ano Carlos do Carmo. O consensual valor da sua obra e o que representa para o país, é sintoma de qual deve ser a importância da cultura, como fator agregador e construtor de identidade, mas também de gatilho para a reflexão crítica do que nos rodeia.

Carlos do Carmo ensaiou uma identidade para a cidade de Lisboa, “menina e moça”, mas cantou também a liberdade, e a esperança que nunca morre que nela habita, pois como diz o povo, “Por morrer uma andorinha sem amor/ Não acaba a primavera”.

Ciência, democracia e cultura são assim três coisas que importam, que se interligam e que são nosso dever e direito. Devemos valorizá-las, defendê-las, mantê-las vivas e fortes, cuidá-las, para que não nos sejam roubadas, sem que se dê conta.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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