Estará a nossa liberdade no osso?

Estima-se que biliões de dólares sejam branqueados todos os anos, por todo o mundo, num processo que dissimula a verdadeira origem de fundos obtidos ilicitamente, de títulos ou outros bens “sujos” que, entre outras coisas, financiam o terrorismo. São atos de financiamento de despesas operacionais práticas, tais como treino, transporte, alimentação ou aluguer. O produto do branqueamento de capitais pode ter origem em crimes graves, tais como fraude, corrupção pública e terrorismo, bem como no tráfico de armas, de drogas ou seres humanos. Ao colocar os produtos ilícitos (sujos) no sistema financeiro, em série ou em “camadas” de transação destinadas a separar e ocultar a origem dos fundos da sua origem ilícita, os corruptos conseguem integrar, reintroduzir tais fundos ilícitos na economia, fazendo parecer que tais transações pareçam normais. Estes atos minam as sociedades e destabilizam as economias e os governos. Em Portugal, uma das ações que tem premiado o branqueamento de capitais é o programa Golden Visa (visto dourado), atraindo alguns investidores estrangeiros que “querem” investir ou viver em Portugal. Esta ferramenta “legal” tem sido alvo de muitos escândalos de corrupção, fazendo crer que a cidadania europeia seja transacionada como uma mercadoria! Lembro o caso Cyprus Papers que, segundo os documentos revelados, denunciou que vários fugitivos e criminosos, condenados por fraude e branqueamento de capitais, e políticos acusados de corrupção, compraram, ao preço da uva, os chamados “passaportes dourados”. Em Portugal, País de Abril, que demora a condenar, onde a cegueira deliberada é quase regra, os números da corrupção e os dos vistos dourados também impressionam: a corrupção tem um impacto no PIB em mais de 18,2 mil milhões de euros (cerca de 7,9% do PIB) por ano e a captação média dos Golden Visa tem andado na ordem dos 670 milhões de euros por ano, conseguindo Portugal atrair mais “investimento incomum” do que Espanha. Nisto, somos melhores do que os nuestros hermanos… Sendo assim, podemos dizer que a democracia e a liberdade estão no osso, visto os sucessivos governos do bloco central permitirem que, conhecidos criminosos e branqueadores de capitais, como terroristas, comerciantes de armas, traficantes de seres humanos, drogas ou armas, ou criminosos de guerra, não sejam sancionados.

Por isto, fazemos parte de um Estado que, possuindo todas as condições para saber que se praticam atividades ilícitas, opta por fechar os olhos à descoberta e por falar pela calada, dizendo que não há dinheiro para a paz, o pão, habitação, saúde, educação.

 

Outros artigos deste autor >

Nasceu e cresceu em Viseu, no seio de uma família com fortes raízes na cidade. Vive em Lisboa desde 2007 e desenvolve o seu trabalho como empresário em nome individual. É dirigente associativo desde muito novo, estando ligado à política, ao desporto e à economia.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts
Ler Mais

Invertem-se os tempos, extinguem-se as vontades – Parte IV

"Claro está, um povo como o cristão europeu medieval que conseguia manter uma postura firme de frieza e crueldade com o seu povo servente, mas todos os domingos escutava a palavra de Cristo sobre todos sermos irmãos e que só os pobres entravam no reino de Deus, simboliza uma contradição entre a devoção religiosa e a real prática moral. Um povo tão contraditório nunca poderia aceitar estrangeiros como os judeus, ou os negros ou os índios, são todos inferiores perante os magníficos povos europeus descendentes de bárbaros, como diriam os romanos. O canibalismo moral, que tanto os conservadores como os liberais praticam, destrói a imagem da virtude ética que eles próprios ambicionam (como desejar uma sociedade virtuosa em nome de Deus, diabolizando em simultâneo o SNS, um exemplo de canibalismo moral)."
Ler Mais

O MUNDO

Foto por Hugo Chinchilla / FlickrEstes primeiros meses do ano, com a tragédia humana conhecida e a que…
Skip to content