Como já referi, anteriormente, ter medo é bom – quando este surge como resposta precautória que nos impede de ter atitudes irreflectidas e que poderiam pôr em risco a nossa integridade. Como o poeta referiu, “o medo vai ter tudo” – quando este surge como resposta imprudente a temores irreflectidos que, na maior parte das vezes, nos fazem afastar da sensibilidade que no nosso intelecto nos torna humanos. Arrojando-me com o poeta referi que “o medo vai ter tudo, menos inteligência” – quando o medo se alia com a irreflexão xenófoba, que nada tem que ver com a preservação da integridade física e intelectual, nem com a preservação do indivíduo e da sociedade, mas apenas com um total alheamento do humano e do humanismo.

Ter medo é bom, não retiro o que disse antes nem me contradigo, mas ter medo não nos pode, nem deve, impedir de pensar, raciocinar e escrutinar. O medo, aliás, deveria apurar-nos os sentidos e fazer-nos pensar mais, não em demasia, mas pensar mais nas cousas e perguntar se será mesmo assim e informar-nos, conhecer e saber, antes de nos deixarmos manipular pelo medo e por quem se usa do medo, para nos manietar e subjugar aos seus interesses. O medo deve servir para evitar os erros perigosos, não para desculpar que estes se cometam.

Celebramos a liberdade em “clausura”, para garantir, não só que nunca nos esqueçamos do que celebramos, mas para garantirmos que restará quem a celebre, e não podemos deixar nem que o medo nos confunda, nem que nos deixe confusos. Não podemos permitir que o medo e a frustração sejam as cordas que nos subjugam à vontade dos titereiros que sem pudor abusam do poder, que o medo impede o povo de ver que é seu. Uma mentira bem falada não deixa de ser mentira. Comemorar a liberdade não significa que irá haver uma festa no Parlamento e que “aqueles malditos filhos duma cadela” deem o dito por não dito, juntando-se num convívio, a enfardar bolo e champanhe, enquanto nós passámos a Páscoa longe dos nossos. Não vai haver festa nenhuma no Parlamento! Comemorar a liberdade significa não permitirmos que nada nos deixe esquecê-la, significa que não nos deixaremos vencer e agrilhoar sob as amarras de nenhuma opressão, significa que é bom ter medo mas que o medo não pode ter tudo. 

É bom ter medo, é por termos medo de perder a nossa liberdade que não podemos deixar de a celebrar. Celebrar a liberdade não é sinónimo de festa pomposa, significa não esquecer, nem permitir esquecer. Porque é o medo, de quem quer que esqueçamos, que os leva a procurar manipular o nosso próprio medo e a querer-nos roubar a liberdade sob a falsa acusação de assim a perdermos. É quem, de facto, tem medo de perder o seu poder que usa o medo para o manter e obter. É o medo deste pesado infortúnio da arrogância capitalista, que nos obriga a celebrar em “clausura” a liberdade, e que pôs a nu as fragilidades e vileza da máquina, que sem escrúpulos abusou do mundo, dos seus recursos, das pessoas e da Natureza. É o medo deste pesado infortúnio que nos relembra a memória de uma crise económica, tão recente que ainda agora dávamos os primeiros passos fora dela, e pior do que a memória dessa crise, nos arrasta já noutra crise que é também social. É o medo, de quem vê agora expostas as agruras do seu instrumentalismo mercantil despótico e nepotista, que se insurge barulhento, procurando que a base da pirâmide que o sustenta não se aperceba e reconheça que tem, e é seu, o poder de derrubar os prepotentes tiranos dos seus tronos. É o medo de que a plebe reconhecendo o seu valor como base, reconheça, também assim, o seu valor para derrubar os glutões do topo da pirâmide. É o medo de que a pele endurecida e calejada reconheça que não precisa, não deve, nem tem de suportar mais chicotadas de capatazes malfazejos e opressores. É com o medo da revolução que brada a reacção.

A revolução já começou, Abril já floresceu os seus cravos, os dados estão lançados e as lanças equipadas. Ficaremos agora parados, vendo a reacção ganhar e erguendo nós os andores da sua procissão, ou marcharemos contra a opressão de quem no florir de Abril só pensa em voltar a oprimir?

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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