Foto de Anderson Mancini | Flickr

“Somos facilmente enganados por um discurso populista, aqui ou ali. Não percebo o mundo em que vivemos. Mesmo os mais educados e esclarecidos esqueceram-se das dificuldades pelas quais passaram os seus antepassados. Estão acomodados à sua vida confortável, mais egoístas e habituados a ver apenas o seu jardinzinho.”
(Nicholas Oulman, em entrevista à Visão, relativa ao seu mais recente documentário, “Debaixo do Céu”, sobre os refugiados judeus em Portugal “depois da fuga dramática à perseguição nazi “.)

À medida que este vigésimo primeiro século progride, aproximando-nos cada vez mais do quinquagésimo aniversário da democracia portuguesa, também a estupidez não cessa de progredir e de, copiosamente, se aproximar dum fenómeno, quase clínico e pandémico, de zotismo agudo. Com o discurso néscio e populista de “digo o que as pessoas pensam”, o parlamento e a democracia portuguesa acabaram conspurcados pela mesma boçalidade de que à custa de muito suor, lágrimas e dores bastantes os valores de Abril nos haviam libertado. Contudo, deveria ser este, certamente, o desejo da quase metade de eleitores que não votam porque “o voto não serve para nada” e porque “são todos iguais”. Há, de facto, uma grande verdade nesta última afirmação; “Todos iguais” uma luta constante em que apesar das imensas vitórias há muito ainda que trilhar para alcançar, efectivamente, esta baliza; a qual parece na sua simplicidade tornar-se mormente complicada para alguns. Mas é aí somente que existe alguma verdade, porque não são todos iguais e o voto faz, realmente, a diferença.

Portugal não é um país perfeito nem, por mais que venham de lá advogá-lo saudosistas da ignorância, nunca o foi. Contudo, não é, também, o único país do mundo com problemas, nem o único onde a corrupção é um flagelo. Por quanto se ouça o chavão “só neste país”, a verdade é que é algo em que não somos quer pioneiros, quer derradeiros. O que somos é, sem dúvida, esquecidos. Porque em menos de cinquenta anos esquecemos o passado e as agruras do longo regime. Passámos a confundir o fascismo com “apenas” racismo e sob o mito de não se poder ser fascista, porque não se é racista, abrimos as portas da democracia, e alguns até mesmo os seus corações, à cavalgada inóspita do autoritarismo ultranacionalista de uma comunidade do povo entregue à hierarquia social das elites e do capital. Parece o gato fascista de Schrödinger, ninguém admite que o é até abrir a Caixa de Pandora do seu preconceito.

“O poema pouco original do medo” de Alexandre O’Neill dizia-o bem, “O medo vai ter tudo / (…) (Penso no que o medo vai ter / e tenho medo / que é justamente / o que o medo quer)” porque é assim que as ratazanas propagam a sua doença; pegam num “rancor psicológico, que [se] alia a um nacionalismo extremo e a uma demagogia anticapitalista violenta” (Ernest Mandel, Sobre o Fascismo) e espalham o medo num hipotético bicho papão que é não mais do que um bode expiatório imbuído em preconceito. Acusa-se o pobre das culpas do patrão, enquanto se passa a mão nas costas do capital fingindo-lhe raiva. Com papas e temores as ratazanas enganam os trabalhadores a lutar pelos seus lucros interesseiros de fama e poder. Quando a desmotivação e desacreditação no sistema se deixam enganar por falsidades bacocas de populismos, “o perigo de uma aceitação passiva e não política de tais ataques contra [as liberdades e] os direitos democráticos elementares[…] contidos na praga[…] constituída pela mentalidade racista e xenófoba, […]no ressentimento irracional[…] e no ódio, igualmente irracional, pelas minorias[…] torna-se uma cegueira trágica.” (idem).

Existe uma crise social efectiva e profunda, nascida das agruras do capitalismo e do seu fetiche pela exploração desmedida e enriquecimento dos nichos, mas não se combate lutando contra nós próprios, “a cigarra, com inveja da formiga não pode votar no insecticida”. Não podemos tapar o sol com uma peneira enquanto as ratazanas espalham o seu fel e o medo, porque quando dermos conta poderá ser tarde e as suas cagalhetas podem degenerar numa montanha, é necessário “reconhecer o mal de forma a combatê-lo a tempo e com sucesso. A catástrofe alemã não se deve repetir. Ela não se repetirá!”(ibidem)

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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