Escalando a montanha

Serra da Estrela | Foto de António da Silva Martins | Flickr
“A sociedade humana é o resultado histórico da luta pela existência e preservação das gerações. O carácter da economia determina o carácter da sociedade. Os meios de produção determinam o carácter da economia.
A cada grande época no desenvolvimento das forças produtivas, corresponde um regime social definido. Até agora, cada regime social assegurou vantagens enormes à classe dominante.
É evidente que os regimes sociais não são eternos. Nascem e transformam-se, historicamente, em obstáculos ao progresso ulterior: «Tudo o que nasce, é digno de perecer».” (Leon Trotsky)

A revolução falhou e pereceu, vítima do conformismo e subserviência ao temor das ameaças de catástrofe e clamores de aqui-del-rei por parte da direita usurpadora e capitalista temorosa de perder pela consciência e educação a mão-de-obra barata e servil, ou está apenas adormecida, convencida de que só acontece aos outros, num conformismo hipócrita e embrutecimento tal que permite a escalada dos brutamontes e das suas forças opressoras?

Estará tão indelevelmente marcada por erros primários e aberrações claras de quem não soube identificar inimigos e metodologias e se confundiu nas definições de ditadura democrática e ditadura do proletariado com o abjecto conceito da máquina burocrática e da ditadura militar e elitista, que não tem como recuperar condigna e popularmente as suas lutas e valores? Estará condenada pelos oligarquismos que, à força da sua tacanhez, por força da perseguição e assassinato redundaram na incúria que visavam combater e, qual doença auto-imune, armaram contra si de preconceito e desinformação a oposição? Estaremos condenados a viver num ciclo de repetição de erros passados, por força de cobarde egoísmo conformista e oportunista? Quero acreditar que não, luto para que não.

O capitalismo sobrevive nos elos da sua identidade histórica, nas teias bafientas da sua secularidade, e é nessa senilidade que os seus elos quebram e deixam entrever as suas falhas e os seus interesseiros manipuladores. É na sua decrepitude que, quais profetas da desgraça, as ratazanas surgem acusando tudo e todos dos males do mundo, responsabilizando o pobre por ser pobre e o doente por estar doente, querendo negar-lhes os direitos que são seus e de todos, e não propriedade das ratazanas e da sua elite. Porque as ratazanas não se opõem ao sistema, elas são o sistema e apenas almejam o seu controlo total, assustadas que estão por verem o cadeado quebrar nos elos podres que nepotistas e despoticamente alimentaram. “A técnica libertou o ser humano da tirania dos antigos elementos – a terra, a água, o fogo e o ar – para os submeter em seguida à sua tirania. O ser humano deixou de ser escravo da natureza para se tornar o escravo da máquina ou, pior ainda, escravo da oferta e da procura.” (Idem) Mas ninguém tem porque ser escravo, nem porque escravizar. O ser humano tem de ser livre e libertar, deve ser capaz de sê-lo e demonstrá-lo. Os cumes das mais altas montanhas foram conquistados pelo ser humano, porque motivo, então, deveria este submeter-se servilmente à vontade mesquinha da pequenez das ratazanas? Enquanto humanidade temos o poder, o dever e a capacidade para dar “um salto do reino da necessidade, para o reino da liberdade, no sentido de que o ser humano de hoje, cheio de contradições e sem harmonia, abrirá caminho a uma nova espécie mais feliz.” (Ibidem)

Parafraseando Shakespeare, o mundo é um palco onde cada qual é o actor principal da sua peça, uma peça em que todos, mesmo aqueles que não conhecemos, participam e onde aos seus próprios olhos são eles protagonistas. Convém, portanto, não esquecermos nunca que “nenhuma pessoa é uma ilha, isolada em si mesma; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte do todo; se um pedaço é arrastado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer pessoa diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” (John Donne)

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Português de Mal e acérrimo defensor da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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