Foto por La Vanguardia | Facebook

No rescaldo dos vis acontecimentos no Capitólio nos EUA (promovidos pelo aberrante presidente cessante e cujos bajuladores portugueses não têm sequer a decência de repudiar); olhando para o emproado discurso de ódio, agora, incompreensivelmente, promovido  em debates presidenciais (e aplaudido e sublimado, pelos privilegiados defensores do costume); considerando que a importante, porém desvalorizada, questão etnorracial continua a ser incompreendida, desacreditada e a imiscuir-se em acções cuja mesquinhez afasta as pessoas do cerne da questão, atraindo-as para pontualidades fúteis e traindo uma luta que, justamente, ganha destaque e espaço de debate; lendo as notícias que alertam para o aumento do número de casos de Covid-19, e consequente alargamento e reatamento desse maldito e limitador estado de emergência, devido à irresponsabilidade de alguns; percorrendo caixas de comentário nas redes sociais, onde nos deparamos com uma inacreditável continuidade do negacionismo e desrespeito pela pandemia, onde há quem ache mais importante discutir pronúncias regionais do que os benefícios da vacina (alguns, demonstrando a sua insciência, exibem jactantes a sua bandeira de irresponsabilidade cívica); parece-me, estranhamente, evidente, que o novo ano não traz (pelo menos para já), nestes seus gélidos ares, qualquer vontade de enjeitar as abominações com que os seus antecessores nos arrastaram pela lama. Ainda mal entrados em 2021 e na terceira década deste século, moderno na ciência e na descoberta, porém, orgulhosamente, atrasado nas mentalidades reaccionárias e dissentâneas, sinto que os votos de ano novo e desejos de felicidade tenham caído em saco roto.

Ao longo do tempo, habituei-me à noção de crise, sendo um conceito sempre tão presente, já não me causa qualquer estranheza que se fale tão regularmente em crises (económicas, políticas, sanitárias, humanitárias), por mais que procure, quanto possa e saiba, denunciar e lutar contra as suas causas, alguma falta de noção (de quem até glorifica os seus responsáveis), o desinteresse generalizado (por egoísmo e abstencionismo) e os interesses duma elite (gulosa por sempre mais um pouco do já tanto que ostenta em transbordo), além do que só posso apelidar de uma inusitada incapacidade intelectual na Era da Informação, levam-me a considerar que haja algum masoquismo social e subserviência resignada à injustiça e ao oportunismo. Nas alturas de crise, as diferenças e as fragilidades tornam-se ainda mais evidentes e acentuadas, mas não é através da incriminação, da discriminação, da assacadilha demagógica e da desunião que se ultrapassam as adversidades. A inveja dos bons não elimina a ascensão dos maus, amplifica-a, alimentando as suas fileiras de cobiça e ódio. Desculpabilizar o que está errado com algo tão ou mais errado não é justo nem pugnaz, é um caminho facilitista e preguiçoso que, apenas intensifica e perpetua o problema. “Olho por olho e o mundo acabará cego.”* A história, ainda tão próxima, parece esquecer-se demasiado imprudentemente. E, da repetição dos seus erros (já o vimos por demais vezes), não resta além do que errar nova e reiteradamente, na esperança, evidentemente, errada, de obter um resultado diferente.

Neil deGrasse Tyson – para quem não conheça, renomado astrofísico norte-americano e sobejamente aclamado pela comunidade científica e não só – apontou brilhantemente, como estrela que é (o trocadilho é totalmente intencional), no seu programa StarTalk (disponível no youtube) os dois principais motivos para o advento nos EUA, em pleno XXI século, das – absurdas e infundadas – teorias terraplanistas; referiu Neil deGrasse Tyson que, se por um lado este é um claro exemplo da liberdade de expressão naquele país, este fenómeno é também, por um prisma preocupante, demonstrador de um sistema educativo em falência, que não educa, criando mentes capazes de raciocinar independentemente e compreender os fenómenos e o mundo em seu redor, mas que apenas ensina a seguir e obedecer servil e cegamente. Num mundo globalizado e de proximidade em que a Internet está em todo o lado e em que as redes sociais têm uma prevalência enorme no nosso modo de vida, este fenómeno torna-se não só uma evidência daquele país, como de todo o mundo e cultura ocidental.

A mesma facilidade de acesso ao conhecimento, torna-nos preguiçosos pela sua obtenção e arrogantes do pouco que saibamos. É por isso que pululam os movimentos (ditos) pela verdade, nos quais muitos dos seus membros, nem tanto por malícia como por soberba ignorância, medram inconscientes quer do seu próprio erro, quer do real propósito daquela “verdade”. Se outrora observámos e receámos o flagelo de “Fake News” na boca daqueles que levianamente usavam o termo para banalizar e desacreditar eventos e pessoas que não correspondessem ao seu discurso interesseiro de mobilização das massas, hoje vemos um fenómeno antónimo, já não “basta” chamar falsas às notícias inconvenientes. Agora, à mentira chama-se verdade e o discurso de manipulação é “pela verdade”. Uma verdade que é apenas conveniente a esse discurso falso e manipulador e que de verdade nada tem, ou o pouco que tem é distorcido e retalhado para assentar no produto que se queira vender. É mais  fácil criar dúvida e desconfiança do que percorrer o caminho árduo da “verdade verdadeira”. Dividir para conquistar.

A ignorância dos demais é uma bênção apenas para quem os tenta controlar e manipular, em função dos seus interesses mesquinhos. A ideia de que ignorar os problemas, abstraindo-nos numa névoa de euforia, seja panaceia para os males do mundo, não mais é do que a cumplicidade complacente e permissiva, que ajuda a escarafunchar o rombo no casco do navio em naufrágio, que a todos arrasta para o fundo. Um só gafanhoto não destrói uma colheita, mas deixando-se procriar desmesuradamente, rápido se torna numa praga que dizima continentes.

 

* Mahatma Ghandi

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Defensor acérrimo da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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