A Curva Chata

Covid 19
Covid-19, Corona Vírus,

A actual conjuntura sócio-sanitária parece ter arrogado “meio mundo”, se não com os diplomas, pelo menos com a convicção de se ser certificado em Medicina e, Comunicação e Jornalismo, assim como fez do habitual (e orgulhoso) negligente político um especialista em gestão de crises e todo e qualquer assunto associado à administração política e pública de meios e recursos, tanto humanos como económico-financeiros. Num repente, pululam em cada teclado e conta de “facebook” peritos em logística (e) política.

Não me interpreteis mal, não desdenho de que se tenham e demonstrem opiniões ou de que se partilhem ideias, homessa! É precisamente o que estou aqui a fazer! Apenas acho de uma soberba hipocrisia e de uma sincera infantilidade, como os mesmos e na mesma frase em que afirmaram “não ligo a política, é algo que nunca me interessou”, logo de seguida, ofendam o bom senso do silêncio, bolsando verborreicos disparates sobre como fariam e aconteceriam milagres, sozinhos, quando estudiosos e profissionais, em grupo, busca(va)m ainda, ou aplica(ra)m já, o indubitavelmente melhor e possível plano de acção. E a minha indignação não é sequer pela arrogância e altivez dos comentários, como se achando “descobridores da pólvora”, mas sim na prepotência como expõem os mesmos quase messianicamente, quais profetas iluminados, ao mesmo tempo que ignoram e até refutam com a sua típica falta de argumentação os factos apresentados por quem de direito.

Esta postura que muitos adoptam nas redes sociais, não para partilhar e debater ideias, mas para se exporem como profetas, na desgraça, é precisamente uma das grandes responsáveis pela disseminação de desinformação e conteúdo falso, descaradamente errado e até mesmo vil. Porque esta atitude profética e a prepotência de “rei na barriga” em achar que se sabe tudo (admitindo, no entanto, não saber nada), leva a um infeliz e desmazelado desinteresse em querer, efectivamente, saber e confirmar o que se acha saber, assim como em pensar, de facto, no que realmente se sabe.

A mentira, tal como a verdade, está por vezes à curta perna de distância de um clique e uma pesquisa. E o pior é que por vezes nem é por preguiça, mas puro e lerdo desinteresse que não se apuram os factos. Nesta era de redes sociais e facilitismos, a irresponsabilidade (até mesmo maldade) de uma única pessoa pode ferir e afectar inúmeras outras; pois que nesta propagação rápida, fácil e precipitada, de conteúdos e notícias, “clickbaits” (caça-cliques) e letras gordas, é de sobeja importância sabermos partilhar e termos cuidado com as partilhas, ter opinião, mas saber opinar. Por vezes o silêncio vale ouro, já há muito o diz a sapiência da grei e é nas suas graças que muitas vezes passa por sábio o tolo. Pelo que, posto isto, por aqui me calo.

Outros artigos deste autor >

Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Português de Mal e acérrimo defensor da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts
Ler Mais

Invertem-se os tempos, extinguem-se as vontades – Parte IV

"Claro está, um povo como o cristão europeu medieval que conseguia manter uma postura firme de frieza e crueldade com o seu povo servente, mas todos os domingos escutava a palavra de Cristo sobre todos sermos irmãos e que só os pobres entravam no reino de Deus, simboliza uma contradição entre a devoção religiosa e a real prática moral. Um povo tão contraditório nunca poderia aceitar estrangeiros como os judeus, ou os negros ou os índios, são todos inferiores perante os magníficos povos europeus descendentes de bárbaros, como diriam os romanos. O canibalismo moral, que tanto os conservadores como os liberais praticam, destrói a imagem da virtude ética que eles próprios ambicionam (como desejar uma sociedade virtuosa em nome de Deus, diabolizando em simultâneo o SNS, um exemplo de canibalismo moral)."

Não te durmas, vai às urnas

Aproxima-se um novo exercício eleitoral, nova afirmação e confirmação plena da democracia e da sua liberdade. Cientes destas…
Skip to content