Foto de Paulo Fernandes

Amiga leitora, há 49 dias que não ligava a televisão. Hoje liguei e vi uma reportagem sobre a fome num canal generalista que emite noticiários diários no horário nobre. Estava sem óculos, por isso não identifiquei o logótipo do canal, e como os que apresentam as notícias são todos iguais entre si não interessa saber se foi no canal público ou nalgum dos privados.

O foco da reportagem apontava para a ação solidária do Banco Alimentar na distribuição de alimentos recolhidos por centenas de voluntários nos super e hipermercados por esse país adentro. Então pensei! Quer dizer, dantes o Banco Alimentar era alvo de suspeitas acerca da distribuição dos alimentos angariados, mas agora a instituição é colocada no pedestal de salvadora nacional, ou seja, passou de besta a bestial, quero dizer, do wc para a tv. Relembro também que a responsável máxima pela instituição, Isabel Jonet, foi perseguida e “crucificada” nos finais de 2018 pelas estações de televisão. Haja coerência editorial!

E mais, referir vezes sem conta que há pessoas em Portugal a passar fome é um insulto para as populações africanas, principalmente as crianças, que morrem de fome e sede desde o século passado. Por favor não inflacionem o verdadeiro significado das palavras em nome do sensacionalismo e das audiências. Afirmo também que corroboro com a senhora Isabel quando, há anos, disse que era melhor os portugueses passarem a comer menos carne. Talvez estivesse a sugerir que fossemos vegetarianos, mas os gordurosos cerebrais, aqueles que só têm um neurónio de vaca louca, criticaram e até despoletaram petições nas redes sociais no sentido de afastar a voluntária da missão primordial do ser humano, ajudar o próximo e servir o bem comum.

Durante a reportagem detetei outro problema, só ouvi uma vez a referência a verdes. Não, amigo leitor, não me refiro ao Partido Os Verdes mas sim a vegetais frescos. Nem de leite ouvi falar, ou seja, as pessoas abastecem-se unicamente de mercearia pesada do tipo massas, arroz e muitos enlatados (ração de combate). Desta forma, está-se a criar um sério problema nutricional, o que dirão as(os) Nutricionistas! Adeus à sopinha suculenta, neste caso, adeus à sopa dos pobres, pois é impossível confeccioná-la de forma saudável sem produtos verdes da horta. Será melhor voltarmos aos tempos da sopa da pedra ou de uma sardinha para três, sem vergonha! 

Não será a obrigação de pagar a tempo e horas as faturas das televisões e dos telemóveis que obriga os trabalhadores por conta de quem enriquece às suas costas, suor e sacrifício, a tornarem-se novos pobres cheios de carências?

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Paulo Fernandes nasceu em Abraveses, Concelho de Viseu em 1969, Bacharel no Curso de Professores do Ensino Primário, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, concluindo a Licenciatura para o 1.º Ciclo do Ensino Básico no polo de Lamego da Escola Superior de Educação de Viseu. Especializou a sua formação para Educação e Desenvolvimento em Meio Rural no Instituto de Comunidades Educativas em Setúbal.
Desenvolveu a sua atividade profissional em vários locais, incluindo São Pedro do Sul, Campia (Vouzela) e Santa Cruz da Trapa (São Pedro do Sul).
Vive nas montanhas mágicas do concelho de São Pedro do Sul, na aldeia do Candal.

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