Escapar da batalha contra a muralha

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O senhor Francisco queixava-se na página de Facebook do Polígrafo, perante a análise  deste jornal à publicação que corre nas Redes Sociais sobre a diferença entre os valores auferidos por um refugiado e um reformado em Portugal, de que a conclusão de falsidade da mesma era corrompida pelo facto de que os refugiados tinham telemóveis bons! Afinal, se juntássemos o valor dos telemóveis com o da ajuda prestada (cama, lençóis, comida, etc.), os refugiados seriam uns privilegiados, pois que até usam o dinheiro de apoio para comprar telemóveis, enquanto “os nossos” não têm nada.

Tentou-se explicar ao senhor Francisco que os ditos telemóveis eram reminiscências da vida anterior à guerra e que os refugiados não fugiam da idade média para a Europa do vigésimo primeiro século. Ao que o senhor Francisco retorquiu com um, infelizmente, já típico discurso bronco: ‘Falais de barriga cheia; então eles que vão para vossa casa. Foi Portugal que os pôs em guerra? Porque é que não vão antes para o Dubai, ou Arábia Saudita, países mais ricos. Falais muito mas atitudes são zero, sois só uns bullies, queria ver se fosseis vós a precisar de ajuda. Ide-vos catar mais a vossa conversa.‘ (n.a. O comentário está parafraseado por mim.) Senti-me na obrigação de responder ao senhor Francisco e de tentar elucidá-lo para o seu erro, mas desta vez sem a ironia nem brejeirice do que já antes lhe tinha dito: “Essa agora, se é refugiado não pode trazer nada, que é, comparativamente, o que o Francisco tem na cabeça.” (Sim, sou humano e também por vezes recorro ao gozo e piada fácil). No final, vi que a minha resposta era enorme e que poderia usá-la como base para um artigo. Entretanto, o senhor Francisco apagou o seu comentário original, mas eu tinha já guardado a minha resposta, para basear o artigo futuro. Resolvi, consequentemente, que a resposta crua seria ela própria o artigo, pelo que segue abaixo tal como é se tivera sido publicada.

“Ó Francisco, tente lá compreender uma cousita ou duas, pergunte-se se esses tais países mais ricos do Médio Oriente, oferecem qualquer tipo de condições para os refugiados e se não serão esses os financiadores e responsáveis pela guerra que os torna refugiados; Outra, o dinheiro que eles, refugiados, recebem nem sequer é seu, ou do Estado, é de um fundo próprio internacional. Não se apoquente que ninguém lhe vai ao bolso para estes salafrários irem comprar telemóveis. Tente compreender estes conceitos simples e quando, ou se, conseguir, tente depois perceber a culpa da Cultura Ocidental (onde Portugal se insere) na guerra que os afecta.

E sim, tem razão, ao contrário do meu amigo César que vê coerência e inteligência nas suas palavras, temos sido, de facto, uns rufias atacando-o e à alarvidade das suas declarações, mas perceba que perante tamanha estupidez é difícil uma pessoa controlar-se e conter a revolta. Quando o meu avô fugiu da guerra no Ultramar, trouxe o quanto pôde nas bagagens, nem ele, a minha mãe ou os meus tios e primos vinham com uma mão à frente e outra atrás, quando chegaram ao aeroporto de Lisboa, os portugueses que viviam cá à grande com uma sardinha para cinco, roubaram-lhes tudo, mas isso é outra questão, o que importa é que as pessoas que fogem da guerra tinham uma vida antes e, muito ou pouco, tinham bens e dinheiro.

Percebo, apesar de não compreender, que a si lhe incomode que se ajudem pessoas que fogem da guerra, mas Francisco, por favor, não seja néscio, tire essas palas dos olhos (não seja quadrado nem olhe só para o seu umbigo) e deixe-se dessa conversa de “só vêm cá para mamar, enquanto aos nossos ninguém dá nada”, até porque se dá ‘aos nossos’, ainda que, por diversos factores, a ajuda possa nem sempre ser suficiente ou a necessária.

Olhe!, da próxima vez que olhar com desprezo para um sem-abrigo, abra-lhe antes as portas de sua casa e ajude-o a erguer-se, em vez de lhe negar dez cêntimos para um papo-seco ou um euro para uma sopa. Eu já o fiz, infelizmente, não conseguimos ajudar como desejado, mas tentámos e não me arrependo. É claro que espero bem que nunca nos toque, mas se algum dia for refugiado e precisar de ajuda, espero que do outro lado não esteja uma brigada de Franciscos a negar-me a ajuda; porque levo um telemóvel, onde guardo recordações da minha vida antiga e onde estão os contactos de amigos e familiares dos quais a guerra me separou e que nem sei se voltarei a ver ou se estão vivos ou mortos.

Espero poder falar sempre de barriga cheia, caro Francisco, e espero que nunca me falte para poder encher a barriga a quem tenha menos do que eu. Poder-me-ia catar mais a minha conversa, mas prefiro tentar explicar-lhe que de barriga cheia está o Francisco e o seu ódio ignóbil, mas que nunca lhe falte também a si Francisco e que nunca veja a sua liberdade barrada entre o arame farpado da fronteira e a bota que o pisa qual erva daninha.”

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Nasceu em Macedo de Cavaleiros, Coração do Nordeste Transmontano, em 1983, onde orgulhosamente reside. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, publicou poemas e artigos na extinta fanzine “NU” e em blogues, antes de editar em 2015 o livro-objecto “Poesia Com Pota”. Português de Mal e acérrimo defensor da regionalização foi deputado municipal entre 2009-2013.
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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