Foto por Elio Santos | Unsplash

Agosto é aquele esperado mês para o descanso, para o lazer, para muitas vezes fazer o que se deseja, esquecendo o que se deve. Simboliza a apoteose existencial de muitas pessoas a quem o tempo de qualidade escasseia no quotidiano.

Podemos pensar muitas coisas sobre agosto, uma é que é tão valorizado porque muita gente anda muito pouco feliz no seu dia-a-dia, numa sociedade estéril que lentamente vai sugando a irreverência e a criatividade das pessoas que se querem como máquinas, a fazer girar o mundo sem que de tal tenham tempo para tomar consciência.

Mas o oitavo mês do ano é também aquele em que regressa quem, por escolha ou obrigação, saiu do país de origem para encontrar melhores oportunidades noutros países. Somos desde há muito um país de emigrantes, demasiados não o são por escolha, neste ano de pandemia os regressos serão menos e as saudades mais sentidas.

Mas agosto devia ser também um mês temido, porque é uma vírgula que para muitas coisas quase funciona como ponto final. Porque é um mês interrupção que pode fazer esquecer em setembro o que até julho era importante e há coisas que não podem ser esquecidas!

Não podemos esquecer os transportes que no interior ainda não foram repostos.

Não podemos esquecer os lay-offs que estão a atingir os limites e a terminar, não podemos esquecer os despedimentos que já aconteceram e os que estão para acontecer, não podemos esquecer a precariedade que permite tudo isto, deixando muitas, em demasia, famílias desamparadas, apesar de o sol brilhar num céu azul.

Não podemos esquecer que o turismo massificado e no limiar do insustentável que noutros anos edificava uma parte considerável da atividade económica portuguesa não pode ser caminho em tempos de pandemia. 

Não podemos esquecer que a resposta quando a situação apertou, à conta de um vírus ainda pouco conhecido, veio de um serviço público e nacional de saúde, que deve ser valorizado e melhorado.

Não podemos esquecer que já em setembro se regressa às escolas, passados meses para docentes, não docentes e estudantes, e que as incertezas e preocupações sobre como tudo se irá desenrolar estão por aquietar.

Também não podemos esquecer que agosto é um mês quente, da terra que ficou quente do que já ardeu e do que ainda estará para arder. Os últimos dados do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas revelam que a área ardida nos primeiros sete meses de 2020 foi inferior à média dos últimos 10 anos, mesmo assim arderam mais de 24 mil hectares em todo país, mesmo assim ninguém está seguro que não possa arder muito mais, porque os incêndios são já uma certeza no nosso país, incapaz de um pensamento estratégico e estrutural que mude a forma como encaramos a floresta e que se foque em criar condições menos propícias aos fogos.

Também não podemos esquecer o ambiente, o clima, as alterações climáticas. Embora com a pandemia a sensação seja a de que há coisas mais urgentes e importantes, de que há outros assuntos do dia, dificilmente haverá, estamos numa corrida contra o tempo para salvar o planeta.

Em agosto vamos descansar, apanhar sol e estreitar laços sociais, vamos, quando for caso disso, ter umas boas férias… Mas vamos tentar que ninguém nos faça esquecer o que precisava de ser pensado e resolvido em julho, pois continuará a ser importante em setembro.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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