Foto por engin akyurt | Unsplash

A pandemia começou há um ano em Portugal. No dia 2 de Março foi confirmado o primeiro caso. No dia 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, saí pela última vez à rua sem guardar distanciamento, colocar máscara ou levar álcool-gel no bolso.

Em 2021, com toda a normalidade que conhecíamos revolteada, continua a ser imperativo lembrar e invocar o dia 8 de março. Se há um ano dizíamos “se as mulheres param, o mundo para”, este ano é de particular importância pensar tudo isto acrescentando à análise uma nova questão: como afetou a pandemia as mulheres?

A pandemia expôs e aprofundou desigualdades e injustiças sociais já existentes, frutos de uma sociedade que ainda ergue barreiras por motivos de género, idade, origem geográfica ou cultural, religião, deficiência ou orientação sexual. A justiça social e a liberdade na diferença são ainda batalhas por ganhar.

A chamada linha da frente é composta, na sua maioria, por mulheres auxiliares de saúde (92%), enfermeiras (82%), médicas (55%) e cuidadoras (80%). No entanto, o trabalho das mulheres continua a ser menos reconhecido. Em média, a diferença salarial entre homens e mulheres é de 52 dias de trabalho pago, o que significa que as mulheres trabalham aproximadamente 2 meses de graça.

São também as mulheres que mais auferem apenas o salário mínimo e as que se encontram com vínculos laborais mais precários. Salários mais baixos, têm ainda como consequência prestações se proteção social e pensões mais baixas, condenando muitas Mulheres a um maior risco de pobreza.

Para além desta diferença no trabalho formal, as mulheres são as que gastam mais tempo com o trabalho doméstico e com os cuidados à família, acumulando uma dupla ou tripla jornada com este trabalho invisível e não remunerado. Uma situação que afeta de forma particular as mulheres em teletrabalho, mas também todas aquelas que se têm entregado às suas funções de combate à pandemia na ‘linha da frente’ ou noutras funções essenciais para que a sociedade não estagne.

Em cima de tudo isto, lembro ainda que mais de 80% das famílias monoparentais são compostas por mulheres, o que nos períodos de confinamento, vem agravar toda esta, já complicada, dinâmica doméstica e laboral, obrigando a uma gestão quase impossível entre o tempo dedicado ao apoio às crianças em ensino à distância e o horário de trabalho.

Mas a pandemia de covid-19 reforçou ainda uma outra pandemia que não posso deixar de referir nesta análise: a violência doméstica, em que cerca de 80% das vítimas são mulheres. Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública mostra que 34% das pessoas inquiridas foram vítimas de violência doméstica pela primeira vez durante a pandemia.

A pandemia não só agudizou os casos de violência doméstica já existentes, como despoletou novas situações, consequências dos períodos de confinamento que forçam a convivência permanente das vítimas com os agressores, além de dificultarem a denúncia. 

As violações de direitos, as desigualdades e as violências contra as mulheres são várias, complexas, distintas e muitas vezes condenadas à invisibilidade A pandemia, acentuou ainda mais problemas que são estruturais. Neste dia 8 de março, que se aproxima, não esqueçamos todas as mulheres, a sua luta, as suas conquistas e o caminho que falta percorrer para uma sociedade totalmente livre de machismo, sexismo e misoginia.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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