Foto por Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>, via Wikimedia Commons

A água doce é base de muitas formas de vida, como a humana, no planeta Terra; a sua escassez e uso abusivo e inadequado, constituem uma ameaça crescente ao desenvolvimento, à proteção do ambiente e à própria humanidade.

Neste sentido, enquanto linhas de água doce que se têm espalhado por todo mundo, desenhando as povoações e as cidades ao longo da história, os rios são vida. Ainda assim, um pouco por todo o lado, enfrentam uma série de ameaças, desde a poluição às alterações climáticas. 

Nesta região em que estamos, um dos rios mais marcantes, abrangendo vários concelhos do distrito de Viseu e dando nome a uma Região Demarcada de produção de vinhos, é o Dão. Nasce no concelho de Aguiar da Beira, Distrito da Guarda, depois atravessa, ou demarca, os limites dos concelhos de Penalva do Castelo, Mangualde, Nelas, Viseu, Carregal do Sal, Tondela e Santa Comba Dão, indo desaguar no rio Mondego, em plena albufeira da Barragem da Aguieira. Os principais afluentes que compõem a sua bacia hidrográfica são o rio Carapito, a ribeira de Coja, o rio Sátão, o rio Pavia, a ribeira das Hortas e o rio Criz.

Uma outra associação que se pode fazer facilmente olhando para estes nomes de linhas de água é, infelizmente, a poluição. Têm sido, ao longo dos anos, comuns as denúncias e notícias de atentados ambientais e episódios de poluição na sub-bacia hidrográfica do Dão.

A cidadania não se conforma com os cenários que vão surgindo nestas águas: maus cheiros, colorações questionáveis, espumas, peixes mortos – e um sentimento de insegurança, no que à saúde pública diz respeito, generalizado.

Quando há poluição dos rios e seus afluentes: é um risco ir à praia, é um risco beber água, é um risco comer alimentos regados por estas águas, é um risco ter animais que possam delas beber. Pela ação humana irresponsável, o rio deixa de ser sinónimo de vida, para ser sinónimo de perigo.

Isto pode provocar outro sentimento generalizado entre as populações: injustiça. Porquê? Porque a origem da poluição as transcende, estando quase sempre relacionada com ETAR a precisarem de manutenção e requalificação, ou indústria e explorações agropecuárias a atuar, impunemente, à margem dos parâmetros legais e da ética ambiental. Também quase sempre os municípios onde tal acontece negam o que é facto comprovado.

Recentemente o Bloco de Esquerda apresentou um Projecto de Resolução no Parlamento com vista à recuperação ambiental e despoluição da sub-bacia hidrográfica do rio Dão, que foi aprovado por unanimidade. Ou seja, a Assembleia da República reconhece uma necessidade, que tem vindo a ser, teimosamente, negada pelos governantes locais.

O Projeto de Resolução aprovado, vai no sentido de municípios e governo central atuarem para garantir um plano integrado para a recuperação da sub-bacia hidrográfica. Será necessária a recuperação das ETAR, fiscalização, sensibilização e atuação relativamente às descargas que persistem a nível das indústrias e da agricultura. É ainda proposto que voltem a existir vigilantes dos cursos hídricos e rios (“guarda-rios”).

Será assim que o Dão passa a ser, sem que dúvida alguma reste, sinónimo de vida?

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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