O despovoamento do interior do país cria problemas de assimetria, vulnerabilidade territorial e, inevitavelmente, de desigualdade social. Em Portugal 70% da população concentra-se nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, o interior fronteiriço está praticamente desabitado e 85% das cidades têm menos de 50 mil habitantes.

Já neste século, segundo dados da Agência Lusa, em Portugal encerraram mais de 6 500 serviços públicos. Encerraram escolas, juntas de freguesia, estações de correio, extensões de saúde, repartições de finanças, tribunais, entre outros. Os encerramentos concentraram-se no interior e norte do país. Estes encerramentos sucedem-se a um período de desinvestimento na mobilidade no interior: desinvestimentos nomeadamente na ferrovia e nas vias rodoviárias.

Para ser possível corrigir anos de decisões que se configuraram como um ataque à valorização do interior, é inegável a necessidade da defesa do reforço da ferrovia. No Distrito de Viseu, muito concretamente, através da requalificação das linhas do Douro e Beira Alta e da construção da ligação Aveiro-Viseu-Mangualde.

Na anterior legislatura, um Plano Ferroviário Nacional (PFN) foi levado a plenário do Parlamento pelo Bloco de Esquerda e rejeitado com os votos da direita e do PS. Este plano contempla a requalificação integral da Rede Ferroviária Nacional; o reforço e extensão da Rede nos territórios deficitários de transporte ferroviário; o reequilíbrio da repartição modal entre os vários modos de transporte e, no seguimento do que tem sido dito neste texto, a correção das assimetrias e reforço da coesão social e territorial.

Um PFN assente nestes objetivos representa uma forte carta para a descarbonização da economia, reduzindo ainda o esforço financeiro do país no comércio de licenças de emissão de CO2, o PFN contribuirá fortemente para a descarbonização da economia.

De modo geral, sintetizando, de comboio podiam chegar a Portugal benefícios para a economia, para o ambiente e para a coesão territorial.

No entanto, não sendo possível ligar todo o território por este meio, não podemos deixar de olhar para as ligações rodoviárias.

Tem obrigatoriamente que ser resgatado o exemplo da IP3, exemplo quase de nível histórico quando falamos de extensões rodoviárias perigosas, propícias a inúmeros acidentes, muitos com consequências muito graves. As notícias de acidentes rodoviários são frequentes. “Acidente Grave”, “Jovem Morre na IP3”, “Despiste”, “Estrada Cortada devido a Acidente”. Estes são títulos de notícias normalizados pela elevada frequência que têm. O interior está pejado de vias sem manutenção, promessas de novas ligações que nunca foram cumpridas, estradas que são, sem rodeios, más, sem condições e que dificultam o quotidiano de quem as percorre, ao mesmo tempo que colocam vidas em risco. Este ano foram iniciadas obras de requalificação, mas quando estarão concluídas? A suposta solução já vem tarde e é pois urgente que se conclua. Da IP3 dependem necessariamente inúmeras pessoas que se deslocam diariamente entre Viseu e Tondela, Santa Comba Dão ou Coimbra, para nomear apenas alguns destinos.

Têm ainda de ser referidas as vias pagas, ou, como é o caso, muito bem pagas. Não podemos esquecer que o interior é cruzado por algumas das autoestradas mais caras do país, refiro-me às antigas SCUT A23 – Auto-Estrada da Beira Interior, A24 – Autoestrada do Interior Norte e à A25 – Autoestrada das Beiras Litoral e Alta.

Em termos políticos o interior desabitado, tem sido também o interior esquecido. A par do PFN é necessário o fim de portagens, requalificação de estradas e construção de novas ligações. Para um interior que não seja mal remendado ao resto do país, é mandatório exigir e defender o fim portagens da A23, A24 e A25, acelerar urgentemente a requalificação da IP3 e fazer as muitas ligações que ficaram em falta, que ligam os concelhos entre si e aos serviços públicos que estão distantes. Os acessos, a mobilidade e os transportes são as linhas com que se cosem os territórios e a uma via fundamental para a diminuição das desigualdades!

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-me em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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