Montanhas reduzidas a pó

Mina a céu aberto

O Relatório de Avaliação Ambiental Preliminar do Programa de Prospeção e Pesquisa de Lítio está em consulta pública até dia 10 de dezembro no portal participa.pt.

As áreas potenciais para lançamento de procedimento concursal para atribuição de direitos de prospeção e pesquisa de lítio são oito, em que duas delas incluem territórios de cinco concelhos do distrito de Viseu: Mangualde, Nelas, Penalva do Castelo, Sátão e Viseu.

Mas o que está em cima da mesa?

A procura de lítio é fundamentada por uma suposta transição para a designada “energia verde”, com este elemento a ser um componente das baterias dos carros elétricos: mas este é o lado “limpo” e aparentemente “verde” desta história.

É preciso aprofundar a questão: primeiro, a bateria de um carro elétrico precisa de vários quilos de lítio, ou seja, atendendo às características do território português, seriam necessárias várias toneladas de rochas, reduzidas a pó, para conseguir o lítio suficiente para uma única bateria. Segue-se o processamento que poderá ser feito noutro país, por exemplo na China, de onde o material parte depois para uma fábrica de baterias, por exemplo na Alemanha, acabando depois por integrar um carro de uma dada marca. Resumindo, a pegada deixada pelo circuito do lítio fica muito aquém de um conceito “verde”.

Mas podemos também olhar para o próprio processo de extração. O tipo de exploração pretendida é vulgarmente conhecida como “mina a céu aberto” e apresenta graves impactos negativos nos ecossistemas e em toda a comunidade envolvente, contaminando o ar, os solos, a água e produzindo uma enorme poluição sonora. 

O processo de extração é, de resto, hoje em dia, largamente mecanizado e, portanto, a criação de postos de trabalho é praticamente nula.

A tudo isto, acresce a natureza efémera própria das explorações mineiras, pois mais cedo ou mais tarde acabam os recursos, ou a procura. O que fica são as montanhas reduzidas a pó, os cursos de água poluídos e a destruição irreversível de ecossistemas.

Não há como contornar que a saúde das populações residentes e a biodiversidade são afetadas por este tipo de exploração, que além do mais invalida qualquer outra atividade que pressuponha a utilização de recursos naturais para consumo, como a agricultura ou a captação de água.

Este é o lado “negro” da história, que condena o interior do país a um desígnio de fonte de recursos, no caminho de uma menor qualidade de vida e de uma menor qualidade ambiental, alimentando a tendência de desertificação e fragilidade deste território. Em nome de quê? De interesses económicos de umas poucas multinacionais e, eventualmente, da subserviência de alguns poderes locais sedentos de “dinheiro fácil”.

A transição para a designada “energia verde” é pois, essencialmente, um mito alimentado pelos interesses do capitalismo extrativista que precisa de criar novos produtos para introdução no mercado, em substituição dos automóveis à base de combustíveis fósseis.

Mas as populações estão atentas e são já vários os movimentos cívicos que têm contestado a prospeção e possibilidade de exploração mineira em locais como, por exemplo, Covas do Barroso, em Boticas, e Serra da Argemela, na Covilhã e no Fundão.

Não podemos falar levianamente de algo que vai reduzir montanhas a pó, redesenhar paisagens e abalar por completo a vida de quem mora nas proximidades das áreas de exploração. Estes são projetos que não podem passar sem uma intensa e eficaz divulgação junto das populações, de maneira a garantir que as mesmas deles têm conhecimento, bem como não podem passar sem a possibilidade de intervenção ativa de agentes como coletivos ambientalistas e movimentos populares!

Carolina Gomes
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Ativista. Formada em Antropologia. Deputada na Assembleia Municipal de Viseu pelo Bloco de Esquerda.

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