A 17 de junho de 2017 um incêndio catastrófico começava em Pedrogão Grande, estendendo-se aos concelhos vizinhos, queimando 53 mil hectares de povoações, floresta e vidas. Este é até hoje o maior e mais mortífero incêndio florestal em Portugal.

Ainda a viver as ondas de choque provocadas por este incêndio, a 15 de Outubro as chamas voltaram a consubstanciar os piores pesadelos do país: no centro e norte estiveram ativos 440 incêndios. Populações ficaram totalmente isoladas, vias de circulação intransitáveis, famílias perderam o contacto, arderam as margens da IP3 e da A25, como arderam os jardins das casas de Santa Comba Dão e as rotundas e outdoors da cidade de Tondela.

O dia 17 junho foi consagrado como o Dia Nacional em Memória das Vítimas dos Incêndios Florestais em 2019 por decisão da Assembleia da República. Mas desde a tragédia dos incêndios de 2017, a face visível das alterações climáticas em Portugal, o que mudou?

Este ano o Observatório Técnico Independente, criado pela Assembleia da República, presta homenagem à Memória das Vítimas dos Incêndios Florestais dando a conhecer num relatório a sua visão coletiva sobre o caminho que foi feito, ou falta fazer, para que tragédias como a de 2017 não se voltem a repetir. 

O que revela esse relatório? Que não se sentem “seguros de que o país esteja suficientemente preparado para enfrentar eventos da mesma magnitude”, apesar de melhorias “nalguns componentes”. Enquanto nada mais for feito, Portugal continua a não estar preparado para incêndios como os de 2017.

Para que o país esteja preparado é necessária uma mudança de paradigma na forma como prevenimos e combatemos os incêndios, na forma como preparamos quem os combate e, sobretudo, na forma como concebemos o território e a floresta. Estas não são novidades, já foram repetidas por toda a gente, são constatações óbvias. Ainda assim, desde 2017 pouco avançámos no sentido da criação e implementação deste novo paradigma.

Um bom exemplo, é continuar a não existir um Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais completo, que deveria ter sido aprovado até abril de 2018, para substituir o anterior Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios, em vigor de 2006 a 2018.

Um outro exemplo é que continuamos incapazes de uma mudança estrutural na nossa floresta, ao não dar resposta a duas questões básicas: a quem pertence a floresta, e de que floresta precisamos. Pelo contrário, em junho de 2020, extensos hectares da monocultura do eucalipto continuam dominar o mapa das novas espécies arbóreas plantadas no país.

O Bloco de Esquerda continua a defender, entre outras medidas, a criação de condições base que preparem os sistemas agroflorestais para as alterações climáticas, evitando a monocultura e as espécies invasoras, bem como um plano de controlo e gestão pública de propriedades abandonadas, como forma de salvaguarda de recursos naturais e de segurança contra incêndios.

O Observatório Técnico Independente faz uma sugestão que repito: que a sociedade aumente a sua exigência para com as autarquias, mas também para com a existência de uma planeamento nacional que estruture os restantes níveis e que, mesmo chegando agora, já vem tarde. Devemos sempre exigir e lembrar que com o fogo não se brinca!

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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