António Costa Silva já apresentou uma “Visão Estratégica para a recuperação económica”, mas falta uma visão estratégica para o interior, mais uma vez ignorado. No que ao interior diz respeito, o que este documento faz é cristalizar a mesma visão que tem ao longo dos anos e das governações devastado os territórios interiores, despindo-os de serviços, de oportunidades, de qualidade de vida e de pessoas.

O que de concreto sai desta tal “visão estratégica” é a imagem do interior como um armazém de matérias-primas, de minas a ser exploradas, de floresta a ser alimento para centrais de biomassa e de terrenos a mono-cultivar. Até esquecemos que aqui há gente merecedora das mesmas condições e oportunidades que qualquer pessoa neste país.

Mas impera perceber uma coisa: enquanto o paradigma sobre o interior de Portugal não se alterar, enquanto a extração mineira não for seriamente ponderada tendo em conta as populações locais, enquanto a solução para a biomassa for somente alimentar centrais, em vez de a aproveitar para regenerar os solos exaustos da monocultura, enquanto perspectivas economicistas prevalecerem em relação a perspetivas que coloquem as pessoas em primeiro plano, o discurso do combate às alterações climáticas e da necessária transição energética não passará disso mesmo: um discurso, longe de ser efetivado.

Com “visões” como esta apresentada por António Costa Silva, o campo de visão continuará a estar afastado do interior, permitindo que continue a ser território e gentes votadas ao esquecimento. Continuaremos sem serviços postais satisfatórios, com ferrovia insuficiente, com transportes públicos erráticos, sem coesão de oportunidades e com estradas e vias rodoviárias decadentes.

Estradas cortadas como se a ninguém servissem ou fizessem falta, isolando ainda mais as povoações e as pessoas, materializando o vazio que têm sido as políticas para o interior. Como exemplo disto mesmo, recorro ao inaudito caso da Estrada Nacional 228, que infelizmente não será caso único.

A EN228 liga a EN16, em Castro Daire, à IP3 em Mortágua, passando nos concelhos de São Pedro do Sul, Vouzela, Viseu e Tondela e seguindo para Travanca do Mondego, concelho de Penacova, já no Distrito de Coimbra. Uma via cuja importância se torna óbvia vendo os pontos que liga.

Mas a EN228 (pasme-se!) encontra-se cortada em Queirã, no concelho de Vouzela, desde um temporal em dezembro de 2019. Enquanto a estrada está ao abandono, cortada num ponto, e abatida noutro, com a circulação impossibilitada ou condicionada, apenas tendo, alegadamente, começado a receber intervenções de reparação esta semana, há populações cujo socorro está comprometido e famílias com faturas mensais de deslocações a aumentarem centenas de euros.

Esta é uma situação simplesmente inconcebível e inaceitável, como tantas outras que se vão somando e quase normalizando o abandono dos territórios cá de dentro. Os problemas do interior são já estruturais e não solucionáveis com medidas ou investimentos estilo “penso rápido” ou com ministérios de faz de conta. É preciso perceber os problemas que existem e o que leva as pessoas a terem de sair do interior, para depois construir uma resposta séria, estruturada e integral. Procura-se, urgentemente, uma visão estratégica para o interior!

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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