Foto de Plataforma Já Marchavas

Está a acontecer, agora, em Madrid a Cimeira do Clima. Numa altura em que a catástrofe climática é iminente e em que já pouca gente acredita ser possível cumprir as metas deste século para a travar.

Esta é a 25.ª Conferência das partes à Convenção quadro das Nações Unidas sobre as alterações climáticas e cumpre a função de acompanhar a concretização dos compromissos assumidos pelos países para as evitar — sem balanços significativamente positivos desde 1992, ano em que no Rio de Janeiro os governos se reuniram pela primeira vez.

Volvido mais de um quarto de século, os avisos são constantes, e o alerta já foi lançado e analisado pela comunidade científica: será muito difícil evitar um aquecimento da temperatura média global acima das metas traçadas até ao fim do século. Isto traça o desenho de um planeta devastado e um cenário de destruição anunciada. A humanidade será reconfigurada, milhões de pessoas terão de se deslocar devido à subida do nível do mar, das vagas de calor ou dos fenómenos meteorológicos extremos que se tornaram cada vez mais frequentes.

Com os governos dominados pelos interesses do capital e dos combustíveis fósseis, as expectativas de ambientalistas em relação ao que vai sair desta cimeira são poucas, numa altura em que se pode afirmar que quase nada saiu das 24 anteriores e em que, mesmo no melhor cenário possível, será extremamente difícil cumprir as metas de descarbonização propostas. Sem um plano de urgência que mude radicalmente a economia e a organização da sociedade, a catástrofe é inevitável.

Neste momento, proteger de forma efetiva o planeta implica desacelerar a economia, reduzir a produção, reduzir os transportes e repensar a forma como concebemos a tecnologia, são necessárias transições energéticas, acompanhadas de profundas transformações económicas, sociais e políticas. Apelos a ações individuais já não bastam, não basta fazer a reciclagem e lavar os dentes com escovas de bambu.
Percebemos agora, cada vez mais claramente, que o capitalismo verde não passa de um verniz bacoco usado por quem não tem interesse no combate efetivo às alterações climáticas. Serve para que tudo continue igual, criando a aparência de que se está a tentar fazer diferente, é uma máscara ilusória perigosa.

A inexistência de reais políticas para o combate à degradação das condições de vida na Terra começam já a sentir-se e não precisamos de sair de casa para o perceber. No Distrito de Viseu já sentimos a ameaça e limitações da seca. No conforto do meu apartamento de centro de cidade já racionei as lavagens de roupa. Ainda há vestígios um pouco por todo o lado da passagem do Furacão Leslie. Telhados com dezenas e centenas de anos começaram a voar por todo o lado e cada vez mais frequentemente. O Tejo está a secar e as ribeiras da nossa infância pura e simplesmente já não existem.

E se a normalidade sub-reptícia com que vamos sentindo o planeta mudar é avassaladora, é ainda preciso não esquecer que a emergência além de climática é neste momento também ecológica, política e social. A Cimeira deveria estar a ocorrer em Santiago do Chile, país que vive uma convulsão social por causa de políticas neoliberais que agravaram a miséria e as desigualdades. O governo chileno de Piñera tomou a decisão de cancelar a Cimeira do Clima, evitando que os dez mil participantes testemunhassem a repressão brutal sobre o povo que já fez dezenas de mortos.

Mas nem assim pararam os movimentos sociais, dezenas de coletivos lançaram o apelo à participação em Madrid na Contra-Cimeira de 6 de dezembro e na Cimeira Social pelo Clima de 7 a 13 de dezembro. Estou em Madrid acompanhada de gente viva e desperta, companheiras e companheiros de luta, arautos da mudança imperativa.

As lutas têm que se cruzar cada vez mais, a interseccionalidade e a união são a única esperança possível para a Terra, este local único que nos permite existir. É este o momento para juntarmos forças e vozes por todo o mundo, para sair à rua e reivindicar justiça para a humanidade e para a nossa Terra, casa e mãe.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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