No início de Maio os cravos ainda são vermelhos

Cravos Vermelhos
Cravos Vermelhos

Em Portugal, o 1.º dia de Maio é povoado por cravos vermelhos. É assim desde 1974, quando, oito dias após o 25 de Abril e depois de décadas de repressão do Estado Novo, o Dia do Trabalhador se assinalou com uma explosão de democracia nas ruas do país.

A data marcou o início da conquista de direitos até então negados: o Estado Social, a Segurança Social, o direito a cuidados de saúde públicos, à educação, à habitação, o direito ao trabalho e ao salário, a luta pelo pleno emprego, o reconhecimento às férias e aos subsídios de férias, a proibição dos despedimentos sem justa causa e a instituição, pela primeira vez, do salário mínimo nacional.

Outros direitos foram também consagrados a partir desta data – o direito à greve, à contratação coletiva e à organização sindical – bem como um novo movimento do trabalho ao nível das empresas, as Comissões de Trabalhadores.

Mas Portugal atravessa hoje um período difícil no que ao trabalho diz respeito, com uma pandemia que expôs anos de más práticas, de precariedade normalizada e de fragilização sistémica de quem trabalha.

São muitas as pessoas agora em lay-off, muitas as que, em situação precária, são despedidas ou ameaçadas, muitas as que enfrentam falta de condições de higiene sanitária para trabalhar. Com a pandemia a grassar os meses, o aumento generalizado da insegurança e do desemprego são cada vez mais notórios e impactantes a nível familiar e social.

Assim, este ano, de forma particular, importa não esquecer que os cravos ainda estão vermelhos, importa assinalar e fazer cumprir o espírito do 1.º de Maio de 74, importa não deixar que os cravos murchem durante o resto do ano.

A defesa do emprego é determinante para a recuperação económica e social de todas as pessoas, das famílias e do país. Mais ainda quando se antevê num futuro próximo uma crise acentuada na economia e nos direitos de quem trabalha.

Por isto, é ainda mais urgente e emergente assinalar o 1.º de Maio, relembrando todos os direitos já conquistados e defendendo o direito a um emprego estável e a um salário condigno.

Porque é inevitável, que este 1.º de Maio seja, também, para homenagear quem tem trabalhado e prezado pela defesa da nossa saúde, nomeadamente todo o SNS, bem como quem tem assegurado serviços como a recolha do lixo, a venda de bens essenciais, os transportes, o correio, a limpeza e manutenção das estruturas e a escola pública na garantia de alimentação de emergência.

Que este 1º de Maio, 47 anos depois de 74, seja um momento para exigir dignidade no trabalho, no salário e na pensão, desenvolvimento do progresso social e prestação de um serviço público. Que seja, de forma renovada, um momento agregador e de celebração da democracia.

 

Arquivo sobre o 1 de Maio

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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