As ruas a quem as merece!

Beatriz Pinheiro

Beatriz Pinheiro foi uma pioneira do movimento moderno de emancipação feminina em Portugal. Nascida em 1871, defendia causas como o direito das mulheres ao trabalho remunerado, ao salário justo, à educação e ao ensino.

Acreditava e lutava por uma sociedade mais justa, foi republicana, feminista, pedagoga, escritora, professora, pacifista, membro da Liga Portuguesa da Paz e da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.

Entre 1899 e 1900, foi diretora, com o marido Carlos de Lemos, da revista Ave Azul, publicada em Viseu e na qual deixou grande parte do seu pensamento republicano, feminista e pacifista.

Faleceu aos 50 anos, em Lisboa, foi injustamente esquecida. Sobretudo em Viseu, onde o seu nome não está inscrito no espaço público. A 26 de abril de 1923, alguns meses após a sua morte, o nome de Beatriz Pinheiro foi proposto, em sessão ordinária da Câmara Municipal de Viseu, para uma rua.

Quase 98 anos depois, a merecida homenagem continua por concretizar, mesmo após a representante do Bloco de Esquerda na Assembleia de Freguesia de Viseu ter apresentado uma proposta, aceite por unanimidade, para atribuição do nome de Beatriz Pinheiro a uma rua. Perto de 10 meses decorridos, ainda não há placa na rua e importa não deixar o assunto cair em esquecimento.

Em Portugal, cerca de 90% da toponímia de lugares ou ruas tem nomes de homens. Também desta forma, as mulheres e a sua importância histórica continuam a ser invisibilizadas. Porque não existem nomes de mulheres nas ruas e lugares? Porque não existem mulheres ilustres, ou porque a sociedade ainda as relega para um segundo plano?

No caso de Viseu a tendência é ainda mais acentuada: apenas quatro ruas têm atribuído nomes de mulheres. Rua Augusta Cruz (cantora lírica), Rua Maria do Céu Mendes (pianista), Rua Hélia Abranches de Sove e a já mencionada Rua Beatriz Pinheiro.

Mas Beatriz Pinheiro e as mulheres, em geral, não são as únicas omissões da toponímia. Também em Viseu, em 2007, a Assembleia Municipal de Viseu, por iniciativa do Bloco de Esquerda, aprovou por unanimidade a atribuição do nome de José Afonso a uma das ruas ou avenidas da cidade. Mais uma decisão consensual que ainda falta cumprir. 

A toponímia não é um pormenor que define moradas. É uma forma de consagrar os espaços a quem é merecedor de tal, de homenagear quem se destacou positivamente na construção de uma sociedade mais justa. Entendo que a toponímia é uma arma que permite escrever na história, no espaço público, na identidade de um lugar, os nomes que refletem a sociedade que queremos.

É neste entendimento que os espaços não devem ser todos no masculino, que topónimos como Oliveira Salazar, ainda abundantes, devem ser seriamente discutidos e contestados, que as nossas ruas devem ser nomeadas e renomeadas, se necessário, refletindo uma sociedade mais diversa.

No poema 25 de Abril Sophia de Mello Breyner canta uma madrugada em que “livres habitamos a substância do tempo”. Pois que neste abril as ruas e os nomes dos lugares sejam de quem os merece, de quem defendeu a causa da liberdade, deixemos que sejam esses os nomes a habitar a substância do tempo.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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