Foto de Rita Carmo

Caro Mário, foi com profunda mágoa que acordei na manhã do dia 19 de novembro e li a trágica notícia que tinhas falecido, tu, um dos maiores nomes da música portuguesa e um símbolo da liberdade. Não podia haver pior notícia naquela manhã, naquele dia, nesta semana, neste mês, neste ano. Foi totalmente inesperado, como a morte é muitas vezes, é certo. Mas ainda assim, porquê? Porque tinhas de partir subitamente? Um dos meus sonhos era ter-te conhecido. Ficou por cumprir. Por isso te escrevo.

Não me recordo bem do ano, mas a primeira e única  vez que te vi ao vivo foi num concerto emblemático no Coliseu do Porto. Devia ter uns 13 ou 14 anos, não sei bem. Isto para dizer que já desde muito novo que te conhecia e te ouvia. Lá em casa os meus avós e pais falam-me sempre de ti, colocavam sempre um disco teu. Segundo a minha mãe, os avós dela conheciam muito bem os teus pais. Eu sempre achei que havia uma ligação qualquer…

 

A cantiga é uma arma? Sim! A cantiga é uma arma, contra a burguesia, contra o fascismo, contra a opressão e exploração, contra o capital. As tuas músicas e letras foram literalmente uma arma durante mais de 50 anos. Criaste armas tão poderosas como: “FMI”, “Inquietação”, “Eu Vi este Povo a Lutar”, “Ser Solidário”, “Qual é a Tua, Ó Meu”, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e “As Canseiras Desta Vida”. Agora somos nós que as temos de usar, cantando-as repetidamente. Juro que isto não vai ficar assim (interrompido, esquecido). Vais ver que a festa não tem fim.

 

“Sou português, pequeno-burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.”. Assim te apresentavas e assim contámos contigo, para cantar e para lutar. Nunca deixaste de dar voz aos homens e mulheres que trabalhavam e que eram explorados pelo capital. Foste e és a voz dos operários, a voz da luta, a voz da liberdade! Nunca deixaste de sonhar e de acreditar que uma sociedade diferente, melhor, mais justa, era possível. Morreste com o desgosto de não ver a revolução de abril cumprida. Foste e serás sempre um símbolo da resistência, um revolucionário que nos ensinou que a cantiga é uma arma. Viste este povo a lutar, para a sua exploração acabar. Viste sete rios de multidão, que levavam a história na mão. Ensinaste-nos que mesmo no silêncio sabemos cantar. Pois o povo, por extenso, é unidade popular. Nunca mais te hás-de calar, ó Mário, para nós, canta sempre sem parar.

 

Rebelde, ativista e feminista deste voz a várias lutas. Desassossegado criticavas tanto a direita como a esquerda moderada, conservadora. Inconformado com o pouco que se conquistou e por ver os valores de abril a dissiparem-se neste sistema neoliberal, gritavas que querias ser feliz. Temos todos e todas de ocupar as ruas e gritar: “Quero ser feliz, porra!”.

 

A tua morte representa o fim de um capítulo, o fim de uma época, o fim de muitas coisas bonitas que vivi e de outras que não vivi, mas que me contavam. José Afonso e tu partiram cedo demais. É uma geração que se está a perder e se as novas gerações não ouvirem estas vozes e histórias o 25 de abril passará a ser apenas uma data no calendário. A tua dolorosa perda irá eventualmente transformar-se numa raiz e, improvavelmente, tentaremos ser felizes.

 

Em 1997 escreveste “De Pé”, uma saudação ao poeta Antero de Quental, e como tal também te saúdo José Mário Branco, pela tua coragem, génio, ativismo, humildade e persistência.

De pé meu canto não te rendas
Saúda o mestre das oferendas
Canta, canta, coração
Que o poeta só te dá o que lhe dão
De pé memória do futuro
Há sempre luz ao fim do escuro
Numa ilha só morre o que lá está
O que conta no que foi, é o que será

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Portuense mas reside em Viseu desde 2015 e é apaixonado por cinema e política. É administrador do site Cinema Sétima Arte, programador de cinema no espaço Carmo 81 e fez parte da equipa que reabriu o Cinema Ícaro, em Viseu, com o Desobedoc 2018. É ativista na Plataforma Já Marchavas, que organizou a 1.ª Marcha LGBTI+ de Viseu, em 2018.

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