Foto retirada de Cinema Sétima Arte

Medeia Filmes vai disponibilizar em streaming gratuito o documentário “Torre Bela” (1977), do alemão Thomas Harlan, um dos mais emblemáticos filmes realizados durante o PREC, durante o Verão Quente de 75.

No contexto das comemorações do 46.º aniversário da Revolução de Abril, a Medeia Filmes, em programa especial extra da sua “Quarentena Cinéfila”, vai disponibilizar no seu website oficial, das 9h do dia 1 de maio (sexta) até às 24h dia 3 (domingo), “um dos mais fabulosos documentários da história do cinema”, como afirmou Paulo Branco, que o estreou em sala, em 1979 em França, e em 2007, em Portugal.

“Em Abril de 1975, camponeses sem terra e sem trabalho, muitos deles analfabetos, desamparados, ocuparam a herdade da Torre Bela e aí constituíram uma cooperativa. O realizador alemão Thomas Harlan filmou a ocupação, ao longo de 8 meses. Filmou, num dos mais emocionantes momentos deste documento único, a celebração da liberdade ao som de ‘Grândola, Vila Morena’, hino da revolução, interpretado pelo seu criador, Zeca Afonso, por Francisco Fanhais e Vitorino, por Camilo Mortágua, e pelas centenas de homens, mulheres e crianças que ali se juntaram, apoiando a ocupação espontânea da Herdade da Torre Bela. Torre Bela, o filme, é um dos mais notáveis documentários feitos em Portugal e na Europa, de valor inestimável e universal.”

Thomas Harlan e a sua equipa filmam, durante oito meses, na Torre Bela, o processo de ocupação de uma herdade pelo povo local. Deste modo dá-nos a conhecer o que foi realmente o PREC (Processo Revolucionário em Curso) e o que se perdeu e o que se ganhou.

Harlan filma longas discussões entre os trabalhadores; o palácio do duque de Lafões a ser ocupado, tal como a sua herdade; uma discussão sobre a quem pertence uma enxada; reuniões em praça pública onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém se entende. Tudo isto aconteceu mesmo. Foi real. Ou será que não foi? Será que tudo isto aconteceu na realidade? Terá Harlan interferido na ação dos acontecimentos, para contar a sua própria história? Tudo isto aconteceu, mas as imagens de Harlan interpretam à sua maneira esses acontecimentos. É legitimo. O cinema é e sempre foi uma interpretação da realidade. Poderemos falar de “cinema-verdade”. Mas o que é a verdade? Não há duvida que Harlen tentou intervir nos acontecimentos.

Este é um documentário antropológico bastante controverso que nos questiona se o realizador deve ou não intervir nos acontecimentos que estão a ser filmados pela câmara, como aconteceu com Thomas Harlan neste filme. “Torre Bela” é ainda hoje um objeto de estudo fascinante sobre o poder da imagem e sobre o Portugal do pós-25 de Abril.

Em 2011 estreou o documentário “Linha Vermelha”, de José Filipe Costa, que revisita e ajuda a compreender ao pormenor o filme “Torre Bela” e as intenções e o método de trabalho de Thomas Harlan.

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Se disséssemos que éramos um bando de miúdos, um tanto sonhadores, que queriam fundar um site para escrever sobre cinema e que, por algum desígnio divino, pudéssemos fazer da vida isto de escrever sobre a sétima arte, seria isso possível? A resposta é óbvia: dificilmente. Todavia Isso não impediu o bando de criá-lo em 2008, ano da fundação do Cinema 7.ª Arte. O espírito do western tinha-se entranhado em nós…
“A atividade crítica tem três funções principais: informar, avaliar, promover”. É desta forma que pretendemos estimular o debate pelo cinema.
Acima de tudo, escreveremos sempre como cinéfilos, esses sonhadores enamorados da sétima arte.
www.cinema7arte.com

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Portuense mas reside em Viseu desde 2015 e é apaixonado por cinema e política. É administrador do site Cinema Sétima Arte, programador de cinema no espaço Carmo 81 e fez parte da equipa que reabriu o Cinema Ícaro, em Viseu, com o Desobedoc 2018. É ativista na Plataforma Já Marchavas, que organizou a 1.ª Marcha LGBTI+ de Viseu, em 2018.

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