E agora? O que fazer? Do centro-esquerda ao centro da esquerda

O futuro de um partido dito de centro-esquerda não é o mesmo que o futuro de um partido que queira emergir enquanto centro da esquerda.

O chumbo do orçamento pelos partidos da esquerda foi só a última expressão de uma morte adiada. Na verdade, foi desde a recusa, em 2019, na segunda legislatura do governo de António Costa, de uma reedição da “gerigonça” que o espírito que motivou a solução de 2015 teve o seu fim. Não por acaso o PS, em 2019 e 2020, votou mais vezes ao lado do PSD que do BE e do PCP e, inclusive, mais vezes ao lado do CDS do que do BE. O mapeamento do sentido de voto do partido de charneira ao longo das respetivas legislaturas é, antes de tudo, um indicador da inclinação da sua agulha ideológica, das escolhas que toma para privilegiar certos interesses (que, por sua vez, alimentam certas clientelas) em detrimento de outros; e é indicador também da forma como o PS se posiciona no quadro, tanto nacional como internacional, em relação aos poderes instituídos (nomeadamente ao normativo emanado da União Europeia com a sua ortodoxia financeira e monetária) e às visões dominantes do mundo no que respeita à economia e à sociedade. É, portanto, o melhor indicador de tudo o que separa a esquerda da direita em relação, tanto aos grupos sociais ou classes que querem defender, quanto à visão e horizonte que têm para o país em respeito ao seu posicionamento na europa e no mundo. É também a partir da bitola desta fratura, de todo este oceano que separa o continente da esquerda do continente da direita, que podemos descortinar as tendências, as razões, os motivos e as escolhas concretas de um partido que se mascara de centro-esquerda ainda que, no que respeita ao essencial, vota sempre ao lado da direita até ao ponto de preferir quebrar as negociações com a esquerda do que negociar um orçamento que possa responder, com políticas de esquerda, às reais necessidades do país. É assim na saúde, na educação, no trabalho, na habitação e no sistema financeiro; enfim, em tudo aquilo que define o nosso presente e futuro comum.

Do que se trata de opor não é então partidos “responsáveis” a partidos “irresponsáveis”, partidos de “regime” a partidos de “oposição” ou de contrapoder, nem, quanto mais, se tratam de divergências em respeito a questões meramente técnicas e quantitativas que se tratariam de mitigar à medida da convergência das principais forças políticas nacionais com as tendências internacionais dominantes. Do que se trata, como podemos refletir pela nossa própria experiência pessoal e pelo que nos vem chegando dos meios de comunicação social, é de escolhas corajosas para defender um SNS de excelência para todos e todas independentemente dos recursos económicos de cada um – com medidas como a criação de um regime de exclusividade para os trabalhadores do SNS ou a autonomia dos hospitais para contratar pessoal; para defender uma agenda verdadeiramente digna do trabalho capaz de reverter os derradeiros empecilhos da troika e de equilibrar a balança das relações laborais; para defender a justiça social no que respeita ao acesso às pensões eliminando duplas penalizações sem sentido.

Para os desafios que os trabalhadores e a população de Portugal têm a enfrentar sabemos – depois de seis anos marcados por um histórico de deslealdades, de chantagens e de cativações do PS em relação à esquerda – de que lado é que o “centro-esquerda” do PS verdadeiramente está, e que o que é preciso é de dar força à esquerda de forma a colocá-la no centro da disputa do nosso presente e futuro comum quando tudo o que demais existe para além desta – do PS até à extrema-direita e à direita neoliberal (duas faces da mesma moeda) – é a conformação ao sentido atual do mundo e escolhas políticas que privilegiam particulares interesses instalados a um país e a uma realidade que se quer construída em comum.

Fazer perceber que o centro de gravitação de um projeto de esquerda para o comum não passa pelo PS é o primeiro passo para superarmos o luto da gerigonça. E que estar do lado da esquerda para enfrentar os desafios do presente e do futuro comum é uma escolha que só ao PS diz respeito e não o contrário – isto é, da esquerda em relação ao PS.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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