É a democracia compatível com a profissionalização dos políticos?

No debate na Rádio do Jornal do Centro entre os candidatos à Câmara Municipal de Mangualde, Marco Almeida (PS), Joaquim Patrício (PSD) e António Vilarigues (CDU), o candidato do PS, acossado por Joaquim Patrício, e em um breve momento de exaltação, frisou o seu orgulho em ser um “político profissional”, como se a dignidade da política coincidisse com a sua profissionalização e como se não houvesse distinção entre “servir o público” e o ser por ele servido. 

Ora, sem alinhar em qualquer sanha populista contra “os políticos” que na verdade só serve para erodir a própria existência da política e da democracia, nem por isso devemos deixar de considerar os riscos da profissionalização da política para a democracia, nomeadamente a resultante dessa promiscuidade nas fronteiras entre a participação num processo de construção coletiva que é a política e os interesses pessoais, o “carreirismo”. Esta profissionalização da política é também terreno fértil para o caciquismo, para um exercício do poder como autoridade e paternalismo, mesmo em contextos democráticos, especialmente em regimes democráticos. 

Se a política é um processo de construção coletiva que faz com que os homens e as mulheres forjem cidades e/ou comunidades que os realizem enquanto tais, a política como exercício de representação nos órgãos públicos deve ser sempre considerada como uma passagem, um lugar de transição, uma contingência, um lugar onde tão levemente se está, como tão levemente se deixa de estar. A medida da realização política não é a profissionalização, ou, como diria Max Weber, a vocação. Porque a política nunca se confunde com a atividade desta ou daquela elite, desta ou daquela personalidade, desta ou daquela classe profissional ou burocrata, pelo contrário, ela é sempre um processo de construção do nosso presente e do nosso futuro nas comunidades que moldamos pela nossa condição de coabitantes de um território partilhado, de concidadãos. 

E se de facto as forças políticas que dominam o nosso presente coletivo se preocupam com fenómenos como a abstenção e a apatia política, então a clausura da política nas mãos de uns quantos “profissionais da política” é precisamente a resposta que tem aprofundado essa mesma abstenção e apatia política.

O que é preciso, na verdade, para repor a dignidade da política e para resgatar a vontade popular, é “desprofissonalizar” a política, resgatar o sentido da política tanto como responsabilidade quanto como expressão do desejo de todos e de todas. Romper com essa divisão da política e da democracia entre os “fazedores de política” e os seus “recetores”, ou entre os seus “profissionais” e os seus “consumidores/clientes”, é uma tarefa política por excelência que coincide com aquilo que intuitivamente atribuímos à vida democrática: um fazer político com todos e todas sem exceção que inscreve publicamente a “vontade geral” contra a distribuição da desigualdade nas hierarquias do poder, das competências e dos cargos.      

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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