O coronavírus é agora a nossa realidade. Como se tudo o que está relacionado com o mundo humano, em todas as suas dimensões (vida privada, economia, finanças, educação, ciências naturais, ciências sociais, desporto…) estivesse dependente unicamente dessa variável: o Covid19. O mundo constrangido, concentrado exclusivamente sobre a situação pandémica, todo o espaço do comum ladeado pela ameaça do contágio, como as águas profundas que rodeiam a fortaleza. O vírus inaugurou uma situação, uma nova realidade diante da qual nos definimos enquanto sujeitos, enquanto humanos justamente definidos pelas escolhas que fazemos diante da situação, isto é, a realidade, a pandemia.

Experimentamos agora esse tempo incrivelmente concentrado quando o espaço físico nos foi vedado pela exceção. Quando os negócios públicos estão paralisados e perdemos o horizonte, não sabemos o que esperar, que clareira esta pandemia vai abrir nas nossas sociedades, o tempo é agora o reduto onde depositamos toda a nossa presença (para além do mundo virtual), onde esgotamos toda a nossa criatividade. O tempo é agora o de fazermos tudo “o que ainda não foi feito” ao nível das nossas vidas domésticas, o problema é que um tempo acelerado numa realidade espacialmente constrangida só nos incita a imaginação e não a ação (ação como expressão de uma tomada de posição e de inscrição pública). O tempo foi também circunscrito à realidade do combate à pandemia, quando perdemos acesso ao horizonte pós-pandemia, quando não sabemos o que nos reserva o futuro, nesse tempo em que teremos, de uma ou de outra maneira, de voltar a erguer tudo de novo – ainda que tudo possa ficar diferente. O corte radical com o habitat que tornava as nossas vidas mais ou menos previsíveis, essa dissociação ontológica, esse desenraizamento, teve o efeito fundamental de nos vedar o acesso ao tempo por vir. A incerteza agora não marca apenas o âmbito das nossas relações económicas, das nossas relações sociais, como penetra na espessura da própria ontologia. E, contra a incerteza, a tradição política ocidental em reação.

No livro O objeto sublime da ideologia Slavoj Zizek refere-se a essa precariedade ontológica do humano – mais ainda a essa inadaptação existencial e ontológica – que é o próprio signo do desvio em relação à sua inserção no mundo, particularmente ao mundo natural. A variável pandemia – com toda a sua agressividade e omnipresença – representa uma sobrecarga relativamente ao sistema constituído pela organização humana, como uma espécie de excesso que toda a providência política e técnica não foi capaz de conter – ainda que o sucesso dos países asiáticos relativamente aos europeus, por razões que aqui se encontram aludidas [1], nos pareça evidente.

Essa tradição política que se centra no antropocentrismo e consequente antropomorfismo representa, por seu turno, uma sobrecarga relativamente ao mundo natural que todo o tipo de catástrofe natural acaba por devolver. Não é que a Natureza possa ser sintetizada como uma entidade dotada de intencionalidade, ela é a metáfora para os equilíbrios conseguidos entre as diversas formas de vida que se processam à margem da capacidade humana para os distorcer ou, por vezes, extinguir.

A pandemia é um choque, mas não um choque processado intencionalmente (pelo efeito calculado da agência humana) no interior das dinâmicas humanas, é um choque que vem “de fora”, e que, por essa característica, abre-nos um espaço que ainda não está totalmente monopolizado pelo desenvolvimento e metamorfoses do capitalismo. É exatamente neste ponto que me afasto do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han que se socorre da doutrina de choque ensaiada por Naomi Klein para explicar os processos de evolução criativa/destrutiva do neoliberalismo [2] É claro que as forças económicas capitalistas e a lógica governamental continuam a monopolizar os discursos e as práticas – da direita à esquerda – inseridas como estão na tradição política, mas, por outro lado, estão agora vitalmente desenraizadas do seu próprio mundo, do seu próprio ordenamento, por conta de um vírus que continua a desfazer os laços sociais e económicos, a provocar, em sentido lado, o colapso do regime.

Os Estados de emergência que se declaram em catadupa pelo mundo inteiro, mesmo em democracias, especialmente em democracias, é mais um desdobramento da tradição para que tudo continue sob o controlo das elites políticas e económicas. Uma constituição democrática que contém a sua própria suspensão deve-nos levar a refletir sobre o significado de democracia, sobre o que é isso de vivermos em democracia, decisivamente em “regimes democráticos” como regimes constitucionais, liberais, burgueses, parlamentares… Pois que, na realidade, mesmo em regimes democráticos – o que não deixa de ser paradigmático – as relações de poder não se desfazem mesmo em tempos de exceção, especialmente em tempos de exceção. O poder e as instituições que o tutelam desdobram-se de forma a acomodar todas as potenciais mudanças na situação – especialmente as mais drásticas – de forma a preservar a sua centralidade na organização da vida social de uma determinada comunidade política. É todo um paradigma, um padrão de pensar o agir político e seu consequente conjunto de práticas mais ou menos universais e institucionalizadas.

No século quinze na obra O Príncipe e a propósito de “Quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se pode resistir-lhe” Maquiavel refere-se à necessidade de se construírem “diques e resguardos” para refrear a “fortuna”, dizemos nós a contingência, aquilo que não depende da nossa vontade, os “ventos da sorte”. Reapropriando-nos da metáfora maquiavélica se compreendermos a Fortuna como a crise epidémica e o Estado democrático de exceção (conceito interessante) como a Virtude – enquanto “virtude organizada” – e se analisarmos este contexto muito singular à luz daquilo a que temos vindo a designar como a tradição política – o paradigma – concluímos que a política dominante (antropocêntrica e antropomórfica) mais não fez e não faz do que preservar “fortalezas” – formas de comunidade antropocentradas, das famílias aos Estados-nação às instituições supranacionais – a despeito da violência infligida ao meio natural que rodeia essas fortalezas. Mais ainda, a política da fortaleza não só simboliza a violência contra o mundo natural em prol da preservação de uma certa ordem social, da polis, de um modo de vida, da civilização, como essa violência se interioriza no próprio corpo social através da separação dos indivíduos por géneros, por classes, por raças… e gerando, a partir dessa separação e de todas as relações assimétricas daí decorrentes, todo o tipo de conflitualidades.

Ao associarmos esse modo de se compreender a política, esse grande paradigma que se adapta de forma a se moldar às demandas democráticas populares, à evolução tecnológica associada à organização económica capitalista industrializada temos por resultado todo um paradigma a necessitar ser revisto revolucionariamente. É certo que a pandemia não pode ser tomada – a la Badiou – como um evento, apesar de se impor como o nome que define todas as nossas possibilidades nesta situação, os limites, os constrangimentos de toda a ação coletiva ou governamental. Para ganharmos ontologicamente o horizonte que se abre diante de nós, por efeito dessa destituição comunitária provocada por um efeito natural, não podemos ser apenas reativos à imposição da realidade do contágio, temos de ser ativos, isto é, lutar para que um outro nome, uma outra realidade se imponha como a totalidade do horizonte do possível, que monopolize a nossa forma de viver. Uma palavra candidata certamente que seria o comunismo.

[1] https://elpais-com.cdn.ampproject.org/v/s/elpais.com/ideas/2020-03-21/la-emergencia-viral-y-el-mundo-de-manana-byung-chul-han-el-filosofo-surcoreano-que-piensa-desde-berlin.html?outputType=amp&usqp=mq331AQFKAGwASA%3D&amp_js_v=0.1&fbclid=IwAR0IHvQYQgRhBifntGgRJNQAkOs0hk0SOnro4qJymXE7aNbBwICpGtgN1kM#referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=De%20%251%24s

[2]  https://elpais-com.cdn.ampproject.org/v/s/elpais.com/ideas/2020-03-21/la-emergencia-viral-y-el-mundo-de-manana-byung-chul-han-el-filosofo-surcoreano-que-piensa-desde-berlin.html?outputType=amp&usqp=mq331AQFKAGwASA%3D&amp_js_v=0.1&fbclid=IwAR0IHvQYQgRhBifntGgRJNQAkOs0hk0SOnro4qJymXE7aNbBwICpGtgN1kM#referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=De%20%251%24s

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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