Os delírios de um partido de fura-vidas por terras de azurara

Banha da Cobra
Banha da Cobra

A reboque destas autárquicas o Chega chegou também a Mangualde. O caso é exemplar num partido de fura-vidas. Se é preciso multiplicar as oportunidades para partidos que, por um lado, estão saturados de quadros e estagnados em termos de ofertas de carreira, e, por outro lado, que cujas fórmulas políticas foram ultrapassadas pela dinâmica política e social, então cria-se um produto novo e, com este, o respetivo mercado. O produto é o partido da extrema-direita e o mercado é o caldo de indignação improdutiva e dos velhos ressentimentos que a rutura revolucionária não conseguiu impedir que se continuassem a reproduzir nos escombros do Estado de direito democrático.

É entre o oportunismo pequeno-burguês e o caráter invertebrado da sua ideologia e dos seus valores que assomam figuras como as do candidato à presidência da Câmara de Mangualde António Pais Silva. Um dissidente do PSD que, como tantos outros por este país fora, aprendeu bem a lei implacável da sobrevivência num ambiente de concorrência atroz: ou se adapta ou não se sobrevive. Mas como se assume este trânsito de radicalização à direita sem se assumir que se vendeu “a alma ao diabo”? Resposta: com uma espécie de embriaguez ideológica ou de delírio. 

Só assim se compreende que o candidato em causa seja capaz de apresentar, sem se rir, na sua página de político no Facebook, o rendimento básico incondicional como se mais ninguém, nem nenhum partido, o tivesse feito até à sua chegada à cena autárquica com o apoio da extrema-direita. E, claro, sem apresentar um único cálculo sobre a viabilidade da medida em causa. 

Assim nos reza o advogado António Pais Silva: 

“Não sou eu o seu autor, embora não me importe de ser e provavelmente serei o primeiro agente político em Portugal a lançar este tema para a discussão pública e a assumir o compromisso de, com o vosso apoio, propugnar abnegadamente na defesa da sua consciencialização e aprovação em Portugal.

Refiro-me a um rendimento básico para todos (pobres, classe média e ricos). 

Vai chamar-se, como é suposto, de Rendimento Básico Incondicional.“

E este é só um pequeno exemplo de uma página de candidatura pejada destas pequenas pérolas de inconsistência política e de miscelânea ideológica. É claro que todas estas propostas são sempre devidamente revestidas por uma aura de originalidade absoluta e da ordem do religioso, mas, quem ainda vai ser capaz de acreditar nestes vendedores da banha da cobra? Como pode alguém acreditar nestes personagens que reclamam para si a confiança do povo?  

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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