Todos os mangualdenses sabem que, antes de ter ido parar a um partido de extrema-direita, o candidato à Câmara Municipal de Mangualde, António Pais Silva, chegou a ser avançado como hipótese para a candidatura do PSD a estas eleições. Em conformidade com a lei fundamental da economia, não existindo oferta, mas havendo procura, uma parte substancial da direita – com todos os seus quadros e recursos – recompôs-se radicalizando-se. A criação de um partido de cariz populista e de extrema-direita serviu para fundar um espaço político novo que pudesse suprir a avidez dos velhos senhores e daqueles que estes querem substituir – principalmente daqueles que juram a pés juntos, como se de um escândalo se tratasse, que não são “políticos”. 

O embrulho que tomou esta necessidade prosaica de agilizar o acesso às carreiras políticas, com todas as regalias que se esperam destas provir, é um embrulho shakespeariano envolto em som e fúria, mas que, na verdade, redunda num imenso vazio de substância. O negócio torna-se ainda mais arriscado quando se trata de um pacote político como o vendido pelos intermediários, lacaios, fanáticos e prosélitos de Ventura e que é uma autêntica caixa de Pandora. Como pode afinal o nosso candidato de Mangualde, ex-vereador do PSD, querer vender aos mangualdenses a igualdade num partido que veio para dividir e que até assume não governar para todos os portugueses? A quem quer o candidato do Chega a Mangualde atirar areia aos olhos dizendo aos eleitores, como o fez na entrevista à Rádio Dão Digital, para não olharem ao partido e sua cor, mas sim aos seus candidatos? 

Então mas onde fica o projeto político e onde ficam os seus princípios quando se pede para se votar num partido declarada e orgulhosamente racista e homofóbico fingindo não se votar num partido declarada e orgulhosamente racista e homofóbico? Quem quer enganar o nosso “político” acima de todos os “políticos” com o seu “abraço de urso”?

Como podem os mangualdenses confiar em alguém que se diz identificar com as causas e os princípios de um partido, sua bandeira e cor, para logo de seguida pedir às pessoas para não olharem a partidos, bandeiras e cores? Terá o nosso candidato vergonha do barrete onde se resolveu enfiar exclusivamente para apresentar a sua candidatura, para procurar cumprir a sua ambição? 

A narrativa da união acima de todos os partidos e interesses contra uma ensaiada “ditadura” local não é a resposta afirmativa por um projeto alternativo para o concelho, mas a outra face da mesma moeda. E isso torna-se notório quando uma das grandes ideias do Bonaparte que nos calhou para Mangualde é a de tratar o concelho como uma peça de leilão no comércio dos grandes interesses empresariais. A tacanhez atinge os píncaros com a total subordinação do cultural ao económico, assumindo o nosso pragmático advogado a cultura como um aspeto secundário da vida coletiva. Quando não só a cultura pode e deve ser pensada economicamente, como a atividade cultural é uma fonte de atração de pessoas e um sintoma da vitalidade do concelho. 

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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