Pode parecer razoável e sensato os partidos “antissistema” adaptarem as suas práticas discursivas, redigirem os seus programas, discutirem a estratégia e a tática, consoante a forma como leem a conjuntura, consoante a forma como medem o pulso das circunstâncias, as suas possibilidades e o horizonte que estas descobrem, consoante, enfim, o estado da luta de classes ou das “relações de forças”. Contrariamente aos partidos de esquerda radical o sucesso do partido de extrema-direita reflete-se no seu despudor, na sua “virilidade ideológica”, na forma desabrida como anuncia e enuncia o fim do regime. O fenómeno da extrema-direita é como uma hiper-reação do capitalismo quando a compressão das margem de lucro arrisca fazer implodir toda uma classe – neste caso a classe média -, ou, pelo menos, expõe esse medo ao limite da ameaça concreta das condições de existência e de vida dessa classe. O insucesso dos projetos socialistas na atualidade ocidental refletem uma espécie de vontade de imperialismo, de os países com uma história colonial ou neocolonial voltarem a assumir o seu delirante, racista, totalitário e violento desígnio e destino imperial. Mesmo que essa vontade de imperialismo se constranja aos limites do Estado-nação, até porque a metrópole e as colónias coincidem agora nas mesmas fronteiras. Assim se anuncia e enuncia o retorno da lógica de apartheid. Na verdade, estas distâncias, desigualdades e assimetrias estruturais que se refletem no território, que descobrem os diferentes conflitos de classe dentro das fronteiras explícitas e implícitas entre os territórios urbanos, suburbanos e periurbanos, constituem a realidade/verdade geográfica do Império. Não existe o “eleitor-tipo” da extrema-direita como um perfil socio-criminal, nem sequer como perfil classista. Para compreendermos a “produção” do sujeito/eleitor reacionário temos de o capturar nas relações socio-territoriais em que este emerge. Mais ainda quando o lugar da fábrica – e dos antagonismos que aí se descobriam – é agora o lugar do social, isto é, todos os lugares. Para descobrirmos o eleitorado da extrema-direita – e, principalmente, como este se forma/produz – temos então de olhar não só para as relações de propriedade num contexto em que a pequena-burguesia se vê ameaçada, mas, mais a fundo, de como nestas relações de propriedade se descobrem, de forma fundamental/estrutural, relações “raciais” ou racializadas. Neste contexto a extrema-direita não é o outro lado do regime, é a sua militarização.

No quadro histórico de um “desencantamento do socialismo”, a demissão da ideologia é o pior perigo para as esquerdas. A ideologia é uma forma de olharmos para a realidade, e, mesmo numa conjuntura em que a ideologia do socialismo aparece como uma quimera, quando abdicamos de uma prática discursiva em torno do horizonte socialista estamos também a abdicar de fomentarmos práticas concretas que vão ao seu encontro. Quando nos reduzimos à defesa da constituição estamos a abdicar da prática do comunismo, quando nos afirmamos sociais-democratas estamos a abdicar das bandeiras do socialismo com a sua caixa de ferramentas táticas e estratégicas. O impasse histórico das esquerdas deixa de ser apenas um impasse determinado pelas condições e fatores externos para se interiorizar na própria theoria e praxis anticapitalista: são as esquerdas diante do muro que ergueram à sua volta.

Outros artigos deste autor >

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

Deixe o seu comentário

Skip to content