O que fazer diante do colapso?

A emergência é o fim (e o princípio) que justifica todos os meios. E nem a democracia se safa. Foi isso que nos disseram os ativistas da Climáximo no seu happening no debate da RTP enquanto começava o debate entre os líderes das forças com representação parlamentar.
Greve Climática Estudantil de Viseu
Greve Climática Estudantil de Viseu

Já nos outdoors dos mesmos partidos tinham colado cartazes onde se lia: “com o teu voto garantimos o colapso climático”. Na invasão do cenário televisivo apenas reafirmaram a ideia: “travar a crise climática não está na mesa de voto está nas mãos das pessoas” – professava o ativista. Do que se depreende que para a Climáximo os partidos da representação parlamentar não se distinguem entre si independentemente do compromisso programático e ideológico dos mesmos com a necessidade de mudarmos de vida tendo em conta a crise climática. Para a organização ambiental são todos cúmplices (da esquerda à direita) daquilo a que chamam de “colapso”. E não há móbil mais forte do que aquele que se inscreve na nossa necessidade de sobrevivência, o que, no caso do movimento ambientalista, apenas recicla a velha máxima: revolução ou morte! Todos os preceitos, todas as regras, todas as normas, todos os sistemas, são suspensos quando é a nossa vida coletiva que está em causa, mais ainda, a sobrevivência da nossa espécie. Afinal o que poderia limitar a nossa conduta, e a nossa urgência, se soubéssemos que daqui a dois dias iríamos morrer ou que a humanidade se extinguiria daqui a um século? Não há ordem democrática, nem muito menos constitucional, que resista à emergência. E o problema não está em aferirmos até que ponto esta “emergência” é mesmo real ao ponto de devermos sacrificar as nossas vidas pela causa, pelas gerações que nos seguirão. Assumirmos que temos um papel a cumprir na salvação do mundo é um sentimento ímpar que nos veste a capa de heróis, tal como outros se descobrem santos ou mártires. E se muitos dos partidos e seus dirigentes e militantes até estão politicamente comprometidos em “salvar o Planeta”, o que os separa afinal da seita (as metáforas religiosas são sempre interessantes) da Climáximo? Talvez os últimos estejam comprometidos com maior grau de pureza do que os calculistas políticos dos primeiros, que sejam santos por comparação aos corrompidos pela política mundana.

Por outro lado, também não deixaria de ser irónico que partidos que começaram o seu trajeto na república assumindo-se como partidos antissistema viessem agora lamuriar-se do comportamento anárquico e subversivo dos jovens da Climáximo. O problema não está então na sua postura política insurrecional, pelo contrário. Só que esta “guerra” (santa) não depende apenas de um sector ultraminoritário radicalizado de que muitos portugueses nem fazem a mais pálida ideia de sua existência. A luta por uma outra organização social, política e social que dê resposta à crise climática, que altere radicalmente o paradigma vigente que tem no capitalismo a sua cabal expressão, não pode deixar de envolver “as massas” num compromisso coletivo que não depende exclusivamente dos gestos de rutura ou de secessão da ordem, mas também da construção diária, inorgânica e institucional, que tem na vida democrática a sua força. E é também por isso que devemos continuar a contar com os partidos politicamente comprometidos com aquela que é “a luta das nossas vidas”; isto para lá de todos os atos de escândalo e de sabotagem que igualmente devemos continuar a apoiar e promover para lembrar a todos e todas que agir é preciso e que arrepiar caminho do colapso ambiental é transformar o mundo.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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