Da guerra na europa à guerra no mundo e da guerra no mundo à guerra na europa

Não à guerra na europa, não à guerra no mundo. Não ao(s) imperialismo(s). Pela paz e solidariedade entre os povos.     

Muitos camaradas denunciam, e bem, a seletividade da predisposição emocional aos povos guerreados e ao sofrimento em geral desses povos por respeito aos demais conflitos internacionais. Muitas outras guerras, ingerências externas e agressões a soberanias foram legitimadas, e continuam a sê-lo, em nome da defesa do “mundo livre” e da ordem mundial demoliberal. Ainda que, como todos o sabemos, o que orienta a conduta dos países nas relações internacionais não é a partilha de valores nem a construção de comunidades políticas, mas, antes de tudo, os interesses entre os respetivos Estados. Na verdade, o imperialismo norte-americano e dos respetivos aliados mais do que não ter paralelo, é inteiramente imanente à sua lógica, à sua máquina de guerra que é a máquina da expansão do capital e de sua acumulação. O imperialismo é a lógica interna do capital, é o seu motor. E a maior permissibilidade das sociedades ocidentais com as investidas do império do atlântico-norte é construída e manipulada emocionalmente pelo facto de serem “os nossos”, “o nosso bloco”, “o nosso mundo”. Da mesma forma que a nossa bússola moral tende a mudar quando se trata de uma guerra na europa entre os que partilham da mesma geografia, história, cultura e interesses materiais, e quando se trata de uma guerra entre ou com os quais não nos identificamos nesses mesmos aspetos, e, antes de mais, em termos étnicos. Podemos então dizer que a “hipersensibilidade” que tão bem e rapidamente mobilizou os nossos corações para com o povo ucraniano e em toda a repugnância e condenação pela invasão de um Estado a outro, de uma soberania a outra, se deveu, antes de mais, ao facto de se tratar da europa, da nossa geografia comum e, claro, de o beligerante ser um não-alinhado, um autocrata, um inimigo do nosso modo de vida e da nossa democracia liberal, no limite, a encarnação do “mal absoluto”.

A nossa sensibilidade parece mudar, não só quando se trata de guerras longínquas, em outros continentes, como, principalmente, se trata de guerras que envolvem categoriais étnicas como “os árabes”, os “sul-americanos” ou os “africanos”. A matriz da mentalidade colonial parece então relativizar e secundarizar os sempiternos conflitos nestas regiões pelo facto de estes se apresentarem a esta mentalidade imperial como “os outros”. E é o mesmo dispositivo colonial, sustentado em princípios de racialização sistémica, que leva muitos ocidentais a compreenderem as intervenções bélicas dos aliados (EUA, UE e NATO) como palatáveis, como legítimas, quando não justificáveis em termos neocoloniais. Servindo-se assim de argumentos da cartilha como a “manutenção da ordem e da paz mundial” e da “defesa da democracia e do mundo livre” para justificar todo o tipo de atrocidades bélicas e de ataques desferidos ao direito internacional, antes de mais, ao direito de autodeterminação dos povos. É então mobilizado psicossocialmente todo um dispositivo com sustentação religiosa que perpetua a menorização dos povos insultuosamente catalogados de “terceiro-mundo” e que converte a “superioridade moral do ocidente” num direito sagrado, sem qualquer respaldo ou sustentação jurídica de facto, a governar “os bárbaros”.

Assumido isto, nem por isso o argumento da denuncia da “sensibilidade seletiva” ou da hipocrisia das lideranças dos aliados nos deve fazer perder de vista, primeiro, a agressão imperialista do Kremlin enquanto tal, enquanto máquina de guerra ao serviço do capital, dos interesses da sua burguesia, e o sofrimento do povo ucraniano transformado, uma vez mais, em joguete, em conjunto de vidas descartáveis, entre os conflitos imperais, entre os “senhores da guerra” e as burguesias a que servem. Assim como não nos deve fazer perder de vista que a guerra deve merecer, em todo e qualquer lugar sem exceção, a reprovação absoluta que não faz concessões à relativização, seja numa direção ou noutra, seja um ou outro o beligerante, mas antes faz chegar os ecos da sua reprovação universal a todos os cantos do mundo onde a guerra continua. Afinal a solidariedade contra o imperialismo em geral é a solidariedade dos povos contra as máquinas de guerra ao serviço do capital.

Não à guerra na europa, não à guerra no mundo. Não ao(s) imperialismo(s). Pela paz e solidariedade entre os povos.

 

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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