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O que fazer com o inimigo sem corpo? A ameaça a que temos sucumbido, que nos tem paralisado, é uma ameaça invisível, uma ameaça sem corpo, sem definição material. Uma ameaça inteiramente exógena às dinâmicas das comunidades humanas, como se fosse uma espécie de fantasma que nos aterroriza coletivamente. O problema nunca é o número objetivo de casos de pessoas que sucumbem ao vírus, nem mesmo o seu progressivo e lancinante aumento. O que nos causa esta ansiedade e este pânico tão atabalhoadamente mitigado é a antecipação do contágio, da infeção.

Essa antecâmara da paranóia que não apenas faz do outro – qualquer outro – um inimigo potencial, um portador de uma doença fatal, como do eu, do próprio corpo, uma substância em suspeita permanente. O modo como se espalha silenciosamente, descontroladamente, invisivelmente, sem que consigamos enfrentar o inimigo corpo a corpo ou dispondo das clássicas armas de guerra. Pior do que a incapacidade de resistirmos por o inimigo ser mais forte, só mesmo esta incapacidade de resistirmos por não podermos aliar forças, por não podermos unir os nossos corpos, porque temos de nos preservar à distância de um metro.  

Mais, muito mais do que a responsabilização cívica foi o medo que serviu de batuta para a mobilização cívica de forma a respondermos a esta ameaça. A mobilização para a guerra – digamos tradicional – tem uma componente simultaneamente de comando e motivacional (podendo-se dizer que o patriotismo pode ser um mobilizador motivacional), mas, no que diz respeito ao “combate” ao Covid-19, a mobilização significa paradoxalmente imobilização, distanciamento social, rutura com a vida social. Vivemos em cidades fantasmas, mas cidades habitadas, cidades viradas para dentro, sem vida social e pública. Tudo o que nos cerca é agora o Estado de emergência, as restrições à livre circulação, as idas e vindas silenciosas dos trabalhadores e trabalhadores requisitados ou dos serviços públicos indispensáveis, depois, os comunicados na televisão, nos sites noticiosos da internet; a encapelar este ambiente de enclausura e de absoluta previsibilidade a vigilância policial e a tutela política num executivo que absorve em torno de si um poder cada vez mais absoluto.

Pelo medo, pelo medo de nós, mais jovens, virmos a perder quem mais gostamos (os pais, os avós) antecipámos todos os passos da governabilidade. Já estávamos confinados à luz pálida das nossas casas silenciosas quando foi decretada a quarentena geral, quando o “ficar em casa” se converteu num imperativo legal e policial. A questão agora é o de sabermos se podemos, da mesma forma, com a mesma força, antecipar o destino das nossas vidas antes das autoridades estatais, do poder organizado institucionalmente, do capitalismo entretanto restaurado voltarem a fixar as regras do jogo. Passada a imensa sombra, é preciso perdermos o medo para continuarmos a defender a vida, não só a vida física, mas a vida social ante a vida laboral, o tempo de lazer ante o tempo de trabalho, o trabalho vivo e criativo ante o trabalho morto e explorado do mundo capitalista. 

A reação cívica ao anjo negro da pandemia foi um duro golpe para os trumps e bolsonaros desta vida. Submetemo-nos voluntariamente às autoridades estatais, com a autoridade da saúde pública no comando, apesar de toda a incerteza, apesar de toda a nossa ignorância nos termos da virologia e da epidemiologia. Nunca como agora a autoridade científica foi tão ouvida, respeitada, e, fundamentalmente, seguida como conjunto de práticas a obedecer. Na articulação institucional bastante orgânica entre os poderes profanos dos órgãos soberanos da república, a ciência médica e os ditames sanitários, transparece toda a lógica e toda a eficiência da biopolítica. A governamentalidade transmuta-se na ciência de governar os corpos: de “fazer viver e deixar morrer” (Foucault) como tragicamente se comprova no caso italiano que, diante do colapso do sistema de saúde, tem de escolher a cada momento sobre quem é prioritário intervir.

Mas a defesa da vida antecede e conflitua com a biopolítica como gestão governamental dos corpos, da vida humana. Sobre essa linha ténue que separa a defesa política da vida, da biopolítica a tout court, retomam conflitos ancestrais, conflitos que nos projetam enquanto sujeito políticos justamente num tempo de aparente eclipse da política, de crise, de estado de exceção. Num artigo publicado à coisa de uma semana (ver aqui) Sandro Mezzadra fala nesta necessidade de “defender a sociedade” apesar ou mesmo contra “grandes variáveis de autoritarismo e de controlo social”. É a defesa social da vida contra a instrumentalização governamental dos corpos. A defesa da vida contra o business as usual, nessa linha ténue e nem sempre destrinçável entre a administração técnica e científica da vida e a defesa da mesma como fim em si, inalienável, “ininstrumentalizável”. O zelo coletivo pela saúde do comum contra os mecanismos de “seleção natural” motivadas por uma espécie de “darwinismo social”, de sobrevivência do mais apto ou do mais forte.

Pelas lutas, no campo prático e no campo ideológico, que vamos traçando sobre esta linha ténue podemos recuperar a nossa soberania enquanto homens e mulheres de plenos direitos, enquanto seres de projeto e de comunidades. Mais profundamente, por via da defesa política intransigente da vida contra os mecanismos também políticos de “seleção natural”, podemos então encetar caminho para refundarmos o próprio paradigma social, económico e político em que habitamos. Afinal, somos capazes de reclamar pelos melhores tratos sanitários e medicinais possíveis contra os interesses imediatos dos patrões. Somos capazes de incumprir todas as metas orçamentais e todos os tetos de dívida pública a favor da saúde do comum. A necessidade política define-se entre a defesa militante da saúde do comum (da filosofia e da prática da “cura”) e a biopolítica como intromissão do poder sobre a vida, como a criação de contextos ideais/artificiais para a reprodução da força do trabalho.          

Do ponto de vista das lutas sociais a crise epidémica veio abrir e assim definir um novo campo político, um campo político que se define enquanto espaço de negociação entre a humanidade e a Natureza. As definições clássicas da política como distinção entre o “amigo e o inimigo” ou como luta de classes, não sendo eliminadas nem suspensas, passam a estar em articulação com a nossa inserção no mundo natural. Num pertinente artigo intitulado “The virtues of the vírus” (aqui) Rocco Ronchi descreve esta deslocação dos “muros” que separam classes, géneros, etnias e raças, para os “muros” que atestam a nossa vulnerabilidade diante de qualquer um que se cruze no nosso caminho – independentemente da sua origem racial ou condição socioeconómica. Até agora a organização política fez-se dentro do ambiente humano excluindo a natureza, é mais do que hora de começarmos a organizar a vida humana em articulação e harmonia com a vida natural. Porque as políticas da vida, ao contrário da biopolítica, só podem ser medidas enquanto políticas projetadas contra a organização técnica dos recursos humanos, contra a instrumentalização intensiva da Natureza e a lógica predatória da vida (humana e não-humana) no capitalismo neoliberal.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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