É a economia, estúpido!

Servir à mesa / restauração
Servir à mesa / restauração

Imaginemos que chegamos a uma entrevista de emprego e nos dizem que vamos ter hora de entrada mas que não vamos ter hora de saída, que ela depende do fluxo da clientela e da limpeza e preparação do local de trabalho. Imaginemos que nos dizem que as 40 horas semanais não serão respeitadas ultrapassando em 10, 20 horas além da jornada semanal e que estas horas extras não serão pagas enquanto tais. Imaginemos também que nos pagarão o salário mínimo, mais eventualmente um “bónus” de 50 ou 100 euros que não será declarado, que será pago “por fora”. A somar a este cenário imaginemos que não teremos direito ao gozo de qualquer fim-de-semana e feriado, dado ser nestes dias que a procura é maior. Para cereja acima do bolo, imaginemos que nos dizem que a longo prazo não teremos grandes perspetivas de evolução na carreira e que o nosso trabalho servirá para sustentar o modo de vida dos nossos patrões em relação à estagnação das nossas condições de vida. Imaginem só isto e pensem se aceitariam um emprego que oferecesse estas “condições”?

Este exercício de imaginação é uma espécie de exercício pedagógico que poderia ser dado, p. ex. em contexto de formação, aos patrões da restauração e da hotelaria. Esses mesmos que hoje estão tão encostados à parede devido, não propriamente à falta de mão-de-obra, mas à sua incapacidade de a atrair. Muito provavelmente diante destes argumentos os nossos empresários responderiam que se não fizessem negócio à margem da lei que as suas empresas faliriam em catadupa. Que só os mais fortes sobreviriam. Mas mesmo colocando de parte a questão dos rendimentos do patronato versus os salários dos trabalhadores, isso não é sintoma de que se passa qualquer coisa muito errada com a nossa economia? Que se calhar o nosso modelo económico é insustentável? Afinal, porque haverá a classe trabalhadora de sacrificar a sua saúde, o seu tempo, as suas condições gerais de existência, para sustentar o turismo nacional? É que se o turismo tem sido a nossa “galinha de ovos de ouro” os ovos que ela tem vindo a “parir” não têm propriamente ido parar às mãos dos trabalhadores, bem pelo contrário.

A moralização das relações económicas com tiradas provincianas como “os portugueses não querem é vergar a mola” é precisamente um dos fatores que tem conduzido o patronato nacional a afundar-se cada vez mais na sua redoma, no seu autoisolamento. Quando me parece que só esta capacidade de ganhar lucidez, e, principalmente, esta capacidade de transcender o umbigo dos seus interesses pessoais e de classe, poderia resgatar os patrões do seu desespero existencial e, de caminho, contrariar a estereotipação da classe trabalhadora portuguesa que já tem problemas que chegue para ter de aguentar, ainda para mais, a miopia e tacanhez de muitos dos nossos empresários. Afinal, como diria o outro: “é a economia, estúpido!”.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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