PROJETO DE INVESTIGAÇÃO ARQUEOLÓGICA SOBRE O CASTRO DE SÃO JOÃO DAS ARRIBAS – MIRANDA DO DOURO

São minúsculos pontinhos pretos, com aparência petrificada, e carregam muita história: as sementes que Luís Seabra, aluno de doutoramento da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e investigador no CIBIO-InBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, está a estudar foram encontradas em vasos (e também fora deles) nas escavações realizadas no âmbito do Projeto de Investigação arqueológica sobre o Castro de São João das Arribas – Aldeia Nova (Miranda do Douro), coordenado pela equipa de arqueólogos Mónica Salgado e Pedro Pereira. Este projeto conta com a parceria da Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural.

Vaso com sementes. Fotografia | Luís Seabra

Vasos (quase) intactos com sementes: a descoberta do “pequeno tesouro”

O que despertou a atenção de Luís Seabra e dos orientadores da sua tese de doutoramento na área da Arqueobotânica/Carpologia para estas escavações foi a descoberta, pela equipa de arqueólogos, nas campanhas de prospeção arqueológicas de 2016 e 2017, de vasos bem preservados, quase intactos, com sementes, um achado raro, um “pequeno tesouro” que poderá agora revelar muito sobre o que cultivavam os povos que ali viveram há centenas de anos e como o faziam.

“É raro encontrar estes vasos. Acaba por ser um pequeno tesouro para nós e é importante realizar as devidas análises para, depois, fazermos então as interpretações. A descoberta destes vasos foi o ponto fulcral”, destaca o investigador, acrescentado que, com base na sua experiência de trabalho no Norte de Portugal, não tem conhecimento de achados semelhantes. “Penso que é excecional terem sido encontrados estes vasos quase intactos”, remata.

Para já, dentro destes vasos, e também fora deles, nas escavações arqueológicas, foram encontradas sementes de cevada, trigo e centeio, este em muito maior quantidade, representando cerca de 80 por cento da amostra. Este material será, posteriormente, analisado ao pormenor em laboratório, para, depois, em conjunto com a equipa de arqueólogos, ser possível determinar o período cronológico a que pertencem e fazer as devidas interpretações históricas.

Sementes. Fotografia | Uliana de Castro

O estudo das sementes

Do sítio arqueológico para o laboratório, tudo é escavado, descoberto e analisado ao pormenor. “Na zona das escavações, nas diferentes camadas, nós fazemos a recolha de sedimentos para posterior estudo. O processo é bastante simples. Fazemos a recolha de uma amostra, normalmente usando um balde de terra e depois fazemos um processo chamado flutuação, que consiste em colocar água sobre o sedimento, agitar, e, deste modo, todo o material orgânico sobe. Dentro desse material orgânico, encontram-se os carvões, as sementes e, a partir daí, fazemos as identificações e as nossas interpretações, sempre tendo em conta o contexto arqueológico”, explicou Luís Seabra.

Já em laboratório, com o auxílio de uma lupa, é feita a avaliação de todos os macrorrestos, quer daqueles encontrados dentro dos vasos, quer noutros locais durante as escavações, e a sua análise morfológica para identificação. Poderá ainda ser feito um estudo biométrico, “para compreender as dimensões dos cereais encontrados e, posteriormente, compará-los com os que já foram encontrados noutros sítios arqueológicos, de diferentes cronologias, e, assim, tentarmos perceber se existem diferenças com o avançar do tempo”, disse.

Os responsáveis pelos trabalhos arqueológicos do Projeto de Investigação sobre o Castro de São João das Arribas já tinham recolhido vários materiais, incluindo vasos e sementes, em anos anteriores, desde 2016, e cedo perceberam o potencial e a riqueza dos achados, tendo iniciado então uma colaboração com a equipa do CIBIO-InBIO para integrar estudos de Arqueobotânica/Carpologia naquele projeto.

Para já, “conseguimos identificar a presença de centeio, de cevada e de trigo. No entanto, vamos precisar agora de mais tempo, nos próximos anos, no âmbito do meu doutoramento, para fazer a análise das restantes amostras e depois conjugar os resultados”, disse Luís Seabra.

O período histórico em análise

Uma primeira análise feita à antiguidade dos achados, vasos e sementes, indica que “estes deverão pertencer ao período cronológico Alto-Medieval, e poderão ter cerca de 1 000 a 1 500 anos. Mas é algo que necessita de maior aprofundamento”, revela o aluno de doutoramento.

Com base no estudo de todas as amostras que será levado a cabo nos próximos meses e no parecer dos arqueólogos, será possível determinar com maior precisão o período histórico ao qual pertencem as amostras recolhidas, bem como interpretar as práticas e contextos em que esses materiais foram encontrados e como eram usados por povos antigos.

“Vamos tentar perceber os cultivos da altura, e também o contexto arqueológico. Será muito importante para nós compreender o contexto de todas essas amostras, saber porque as sementes se encontravam nesses vasos, qual é o seu significado, para depois fazermos as devidas interpretações”, explicou Luís Seabra.

A importância da Arqueobotânica/Carpologia e do trabalho multidisciplinar

A Arqueobotânica é o estudo de vestígios botânicos antigos recolhidos em jazidas arqueológicas e a Carpologia um ramo de estudo mais específico focado nas sementes e frutos. Quando recolhidos em sítios arqueológicos, estes macrorrestos vegetais fornecem importantes informações acerca da economia e dos hábitos alimentares das comunidades humanas antigas. Estes estudos não devem ser separados, mas sim complementares e integrantes dos trabalhos arqueológicos.

“Os estudos arqueobotânicos têm ainda pouca expressão em Portugal, mas são bastante importantes porque nos dão informações vitais para a compreensão do que e como cultivavam os nossos antepassados. Esta cooperação que temos com a equipa de arqueologia é muito importante, é uma forma de realçarmos este tipo de trabalho”, frisou a aluno de doutoramento.

“Esta ligação, este trabalho multidisciplinar entre a equipa de arqueologia e especialistas de outras áreas de estudo permite obter um trabalho mais completo, com mais informação e isso é fundamental”, conclui.

Segundo Luís Seabra, o objetivo é que, nos próximos dois anos, sejam desenvolvidos e publicados artigos científicos com os resultados dos estudos que estão a ser realizados, em conjunto com a equipa de arqueologia.

Luís Seabra tem como orientador principal, no âmbito da sua tese de doutoramento, João Tereso (investigador do CIBIO-InBIO) e ainda dois coorientadores: Rubim Almeida da Silva (Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto) e María Martin-Seijo (Grupo de Estudos para a Prehistoria do NW Ibérico-Arqueoloxía, Antigüidade e Territorio, Departamento de Historia, Universidade de Santiago de Compostela, em Espanha).

O que é o Projeto de Investigação arqueológica sobre o Castro de São João das Arribas?

O Projeto de Investigação sobre o Castro de São João das Arribas, em Aldeia Nova, no concelho de Miranda do Douro, é um projeto de investigação arqueológica que teve início em 2016 e que, através de operações de baixo impacto, como prospeções e sondagens, pretende trazer à luz novos dados sobre a romanização e a ocupação humana no território do planalto mirandês. No âmbito deste Projeto, são realizadas escavações e estudos arqueológicos no Castro de São João das Arribas. O Projeto é coordenado pela equipa de arqueólogos Mónica Salgado e Pedro Pereira e tem como parceiros a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, a associação francesa Rempart, a Junta de Freguesia de Miranda do Douro e o Município de Miranda do Douro.

Este Projeto conta ainda com o apoio científico de Pedro Pereira, co-diretor da escavação e tem como coordenadores científicos: Armando Redentor, Susana Cosme, Nelson Rebanda, Hermínio Bernardo, Javier Sanchez-Palencia, Francisco Queiroga, Hortensia Larren Izquierdo, Rudolph Nicot e Inês Elias.

A colaboração com a Palombar

Preservar o património rural edificado é uma missão da Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, que considera fundamental a realização de estudos mais aprofundados que visem aumentar o conhecimento sobre a riqueza arqueológica da região do Nordeste Transmontano e sobre os antecedentes das técnicas de construção tradicionais, com o propósito de traçar a sua evolução histórica. Desde a sua criação, em 2016, que o Projeto de Investigação sobre o Castro de São João das Arribas conta com a colaboração da Palombar, que assegura toda a componente logística das campanhas de intervenção/prospeção arqueológica, bem como o recrutamento de voluntários, em parceria com a associação francesa Rempart, para integrar essas campanhas, que são enquadradas nos Campos de Trabalho Voluntários Internacionais (CTVI) da associação dedicados à Arqueologia. A Palombar considera este Projeto um grande contributo para o estudo e conhecimento arqueológicos sobre o Planalto Mirandês e quer continuar a ser um ator ativo e interveniente nesta área de conhecimento.

Por Uliana de Castro/Palombar

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A Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural é uma entidade sem fins lucrativos, criada em 2000, que tem como missão conservar a biodiversidade, os ecossistemas selvagens, florestais e agrícolas e preservar o património rural edificado, bem como as técnicas tradicionais de construção. A associação, que atua orientada por uma abordagem pedagógica e de cooperação, promove também a investigação científica nas áreas da Ecologia, Biologia da Conservação e Gestão de Ecossistemas, a educação ambiental, o desenvolvimento das comunidades e a dinamização do mundo rural.

2 Comments

  • […] Por Interior do Avesso 13 de Janeiro, 2021 Sem Comentários Campos de Trabalho Voluntário Internacionais de Arqueologia asseguraram ações de quatro campanhas de prospeção arqueológica no Castro de São João das Arribas em Miranda do Douro Os Campos de Trabalho Voluntário Internacionais (CTVI) de Arqueologia organizados pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, em parceria com as associações francesa “REMPART” e italiana “CESC Project”, o “IPDJ – Instituto Português do Desporto e Juventude, I.P.” e  “Município de Miranda do Douro”, foram uma componente fundamental para a realização das quatro campanhas de prospeção arqueológica desenvolvidas nos anos de 2016, 2017, 2018 e 2019, no âmbito do Projeto de Investigação S. João das Arribas, Aldeia Nova, Miranda do Douro, coordenado pela equipa de arqueólogos Mónica Salgado e Pedro Pereira. Estes CTVI contaram com a participação de mais de 60 voluntários portugueses e estrangeiros provenientes de vários países (Alemanha, Bélgica, Croácia, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Polónia, Tunísia e Ucrânia), os quais trabalharam nas ações de prospeção e forneceram apoio logístico aos grupos de intervenção, além de terem contribuído para dinamizar a comunidade local, promovendo o intercâmbio cultural e intergeracional e potenciando a valorização do território e do seu património natural, cultural, humano e edificado. A Palombar considera este projeto um grande contributo para o estudo e conhecimento arqueológicos sobre o Planalto Mirandês e quer continuar a ser um ator ativo e interveniente nesta área de conhecimento. Saiba mais sobre as descobertas realizadas no âmbito deste Projeto de Investigação em arqueologia no Castro de São João das Arribas: – Descoberta de vasos (quase) intactos com sementes revela o que cultivavam povos antigos […]

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