Fonte seca

Sou um artista…
Sou um artista!
Um artista sem obra,
Tal fonte sem água,
Fonte seca que respira secamente
Sob um céu húmido e estrelado,
E bafeja, lamentando, pequenas gotas de água
Escorridas pelo vento.
Fonte seca com pó entranhado entre as pedras
Almejando correr a água que sente
correr por entre os seus canos cansados,
Empenados,
Envelhecidos,
Enferrujados,
Esquecidos,
Da água que segura
E almeja deitar com um suspirar.
Mas o bafejo lamentoso
Não tem a força dum suspiro ruidoso.
Então, continua a fonte seca a bafejar
Para não incomodar
Com o barulho do seu cantar,
Tremendo as suas pedras
Com a chuva que cai sobre as suas mãos vedras
Da secura.

Como é duro ser fonte seca
Pulsando água dentro de si.
E ser artista sem obra,
Sentindo a arte nas veias,
Rasgando pele,
Desviscerando o ventre,
Libertando todo o fel
Sobre a carpete poeirenta
Em que estava deitado,
Mergulhado nesse sangue,
Numa tentativa infame de que a arte saia…

(Notas do autor: Recomendo a audição de “Inquietação” interpretado por Camané e Dead Combo. Se já leu, atreva-se a reler ouvindo esta “Inquietação”)

Outros artigos deste autor >

O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

Paulo Rodrigues, Santa Comba Dão, começou a escrever muito cedo.
Participou em várias coletâneas de poesia, prosa ou contos infantis organizadas por vária editoras como a "Orquídea Edições", "Lua de Marfim" e "Modocromia". Escreveu também por diversas vezes em edições "Sui Generis" e a prestigiada "Chiado Books".
Colaborou na organização da fanzine lançada em Santa Comba Dão, "Cabeça Falante", que inaugurou a editora recém-criada "Canhoto Esquerdino R", onde foi Assessor de Comunicação não remunerado.
É criador e administrador do blog "lagrimasdavida.blogspot.pt"

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